EDIÇÃO #34

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

Um estudo com mais de 1 MILHÃO de crianças mostrou: quanto mais cursos de antibiótico antes dos 2 anos, maior o risco de asma, alergia alimentar e rinite alérgica.

Tá bom pra você? Rs

Pesquisadores da Universidade Rutgers, nos EUA, acompanharam mais de 1 milhão de crianças do Reino Unido do nascimento até os 12 anos. O resultado dá uma nova dimensão àquela decisão corriqueira de prescrever ou não prescrever o “antibiótico que a mãe quer”.

E (espero) nenhum de nós sairá dessa edição do TPJ prescrevendo antibiótico da mesma forma…

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Uso frequente de antibióticos nos primeiros 2 anos de vida e risco de doenças crônicas na infância

Fonte: Horton et al. Frequent Use of Antibiotics in Infants and Young Children May Increase Risk for Asthma, Allergies and Other Conditions. Journal of Infectious Diseases, abril de 2025.

Nessa edição você vai aprender:

  • Por que o microbioma do bebê é tão importante (e tão frágil)

  • O que aconteceu com 1 milhão de crianças que tomaram antibióticos nos primeiros 2 anos

  • Os números: asma, alergia alimentar, rinite (e o quanto cada curso adicional de antibiótico impacta)

  • Como usar esses dados na consulta (com a família e com você mesma!)

Por que você deveria se importar?

Porque antibiótico é o medicamento mais prescrito na pediatria, apenas… 

E porque a decisão de prescrever ou não normalmente acontece sob pressão. Pressão da mãe ansiosa, do pai que não pode faltar ao trabalho, do avô que acha que "um clavulinzinho" resolve tudo…

Mas não só isso: pressão da coordenação do hospital que precisa que você libere logo o paciente e chame o próximo porque o NPS do PS precisa aumentar a nota, do impostor(a) que mora dentro da sua cabeça e fica questionando as suas condutas… pressão de todo mundo! 

E durante anos, a nossa resposta para o "não, não precisa de antibiótico" era quase filosófica (e ODIADA pelas famílias): "ah, é viral, o corpo dele vai resolver sozinho”

E não que isso esteja errado, de jeito nenhum… mas esse estudo serviu pra “incrementar” essa resposta. 

Pesquisadores da Universidade Rutgers acompanharam mais de 1 milhão de crianças no Reino Unido do nascimento até os 12 anos e perguntaram: o uso de antibiótico antes dos 2 anos está associado a alguma consequência de longo prazo?

A resposta foi “SIM”. Com dados robustos. E com uma relação dose-resposta clara: quanto mais cursos de antibiótico, maior o risco de asma, alergia alimentar e rinite alérgica.

O mecanismo proposto é via microbioma. O que acontece é que o microbioma intestinal dos bebês é estabelecido nos primeiros anos de vida. É nesse período que o sistema imune aprende a tolerar antígenos ambientais e alimentares. 

E quando o antibiótico chega, especialmente de forma repetida e nesse comecinho, ele não tem como distinguir bactérias patogênicas das protetoras. A flora fica empobrecida. E o sistema imune paga o preço - pro resto da vida, em muitos casos..

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Você acha que sabe, mas…

"Ahhh, mas um cursinho de antibiótico não vai fazer diferença, né? O problema é a criança que toma demais..."

Então.. não mesmo! O estudo mostrou associação de risco já no primeiro grupo, com 1 a 2 cursos de antibiótico antes dos 2 anos. 

O risco de asma nesses pacientes aumentou em 24% (HR 1,24), o de alergia alimentar em 33% (HR 1,33). 

A relação cresce de forma dose-resposta: com 5 ou mais cursos, o risco de asma sobe 52% e o de alergia alimentar, 53%. 

"Ain mas asma e alergia têm muitos fatores. Não dá pra isolar o antibiótico..."

Sim, meu anjo, e os autores levaram isso em conta, também... 

O estudo controlou histórico familiar de atopia, prematuridade, nível socioeconômico e outros fatores confundidores. E a associação se manteve mesmo após esses ajustes. 

Ah, e claro, isso não é prova de causalidade (e os próprios autores deixam isso claro). Mas a associação é consistente, com mais de 1 milhão de crianças e mais de 10 anos de seguimento em uma coorte retrospectiva.

"Tá, mas e quando precisa?” Aí a gente DEVE prescrever, óbvio! E o estudo não questiona o uso de antibiótico quando há indicação bacteriana confirmada…

O ponto foi (e sempre é) o uso desnecessário (que, em pediatria, é infelizmente bastante frequente). 

Otite que pode aguardar 48h. Faringite viral. IVAS sem sinal de complicação. É nesses casos que o dado de 1 milhão de crianças entra na consulta como argumento clínico, não como alarmismo.

O que o estudo mostrou

Publicado em abril de 2025 no Journal of Infectious Diseases, o estudo da Universidade Rutgers analisou dados de crianças nascidas entre 1995 e 2015 no Reino Unido. Essas crianças foram acompanhadas do nascimento até os 12 anos de idade.

Os pesquisadores dividiram as crianças por número de cursos de antibiótico recebidos antes dos 2 anos: nenhum, 1-2 cursos, 3-4 cursos, 5 ou mais cursos. 

E verificaram quais desenvolveram asma, alergia alimentar, rinite alérgica, eczema e outras condições com o passar dos anos. 

E os números, ahhh.. esses impressionam:

  • Asma: aumento do risco em 24% (HR 1,24) com 1-2 cursos de de 52% (HR 1,52) com 5+ cursos

  • Alergia alimentar: aumento do risco em 33% (HR 1,33) com 1-2 cursos e de 53% (HR 1,53) com 5+ cursos

  • Rinite alérgica: aumento do risco em 6% (HR 1,06) com 1-2 cursos e de 18% (HR 1,18) com 5+ cursos

E a relação dose-resposta foi bem clara em todos os desfechos. 

Em português simples: uma criança que recebe 5 ou mais cursos de antibiótico antes dos 2 anos tem 52% a mais de risco de desenvolver asma e 53% a mais de risco de alergia alimentar do que uma criança que não recebeu nenhum curso.

Doído, né? 

Ah, e o estudo também encontrou associações com deficiência intelectual e algumas outras condições do neurodesenvolvimento, que os próprios autores alertam que precisa de mais investigação antes de conclusões mais fortes, mas que não podem ser completamente ignoradas. 

“E por que isso aconteceu? Qual a teoria por trás dessa associação”

Novamente, o mecanismo proposto é via microbioma: antibióticos nos primeiros anos de vida alteram a composição da flora intestinal num momento crítico do desenvolvimento imunológico, favorecendo respostas Th2 (alérgicas) em detrimento de respostas Th1 e regulatórias.

Esse desequilíbrio Th2 aumenta a produção de IgE e a sensibilização a alérgenos, o que, na prática, se traduz exatamente nas condições que o estudo encontrou: asma, alergia alimentar e rinite alérgica. 

O problema é que essa janela de programação imunológica não “reabre”, e o que acontece nos primeiros anos tende a persistir.

O que muda pra você, pediatra de consultório

Primeiramente, nada de entrar em pânico e sair por aí rasgando prescrição de antibiótico. Antibiótico que tem indicação precisa ser dado. Sempre.

O que esse estudo faz é dar peso clínico à hesitação que você já sente quando a mãe pede antibiótico pra infecção viral. 

Antes, você dizia "não precisa" com base em fisiopatologia. Agora, você tem dados de mais de 1 milhão de crianças do seu lado, pra apoiar esse argumento.

Na prática, te recomendo o seguinte:

  • Otite aguda em criança maior de 2 anos sem complicações: antibiótico? Não. Espera ativa de 48-72h, que é segura e recomendada pelas diretrizes

  • Faringite: só prescrever ATB após teste rápido positivo ou cultura (a imensa maioria vai ser viral, mesmo)

  • IVAS: 99,99999999% das vezes é viral. Antibiótico não acelera a cura e não é isento de risco

  • Se houver dúvida sobre a necessidade, documente, oriente sobre sinais de alerta, e combine retorno, em vez de prescrever "por precaução"

E quando a mãe insistir, você pode dizer: "Olha, eu entendo de verdade que você quer que ele melhore logo. Eu também quero. Mas a gente tem um estudo grande, publicado esse ano, com mais de 1 milhão de crianças, que mostra que antibiótico desnecessário aumenta o risco de asma e alergia mais pra frente... Por isso eu prefiro não prescrever agora, e você volta em 48 horas pra gente reavaliar, que tal?."

Isso não é recusa. É cuidado. E agora você tem a ciência para embasar.

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

Estudo com mais de 1 milhão de crianças no Reino Unido, seguidas até os 12 anos, publicado no Journal of Infectious Diseases em abril 2025

Antibióticos antes dos 2 anos → maior risco de asma, alergia alimentar e rinite

Relação dose-resposta: 5+ cursos → aumento do risco em mais de 50% para asma e alergia alimentar

Mecanismo: alteração do microbioma em janela crítica do desenvolvimento imune

ATB necessário = prescreva sempre. ATB desnecessário = tem custo real, documentado

Essa é daquelas edições que a gente vai lembrar quando tiver lá no PS… 

Não porque o dado é novo, porque essa hipótese do microbioma e das alergias existe há anos

Mas porque agora ele tem o peso de 1 milhão de crianças, mais de 10 anos de seguimento, e um nome respeitado por trás. E isso é diferente. Pra nós e pras famílias.

E o mais importante: não muda nada radical na nossa prática. A gente já sabia que antibiótico desnecessário é ruim. 

Só que agora, quando a mãe insistir, você tem os dados. E os dados têm 1 milhão de crianças.

Então compartilha essa news com aquele colega que ainda prescreve "só pra garantir". Com carinho, ok? rs 

E ó, nos vemos na semana que vem, hein? Não foge não…

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC 💛

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