EDIÇÃO #46

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!]

Antes do próximo passo..

Boa noite! Tem queixa que a mãe traz há anos e a gente despacha em 30 segundos com "é fase", "é criança seletiva", "é frescura, vai passar", ou no melhor cenário um "talvez vale considerar uma psicóloga". A criança come 3 coisas. A refeição vira guerra. A família já tentou de tudo.

Até fevereiro de 2026, a gente não tinha critério oficial pra essa queixa, só o ARFID do DSM-5 (ARFID = Avoidant/Restrictive Food Intake Disorder e, em português, Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo, ou TARE). É um rótulo psiquiátrico que junta 4 coisas completamente diferentes sob um mesmo nome.

O Roma V chegou e disse: chega. Acabou o ARFID ou TARE pra nós (palavras do próprio comitê). Agora são 4 entidades distintas, cada uma com critério, fisiopatologia e tratamento próprio. E essas crianças voltaram, oficialmente, pra dentro do consultório.

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Os 4 Distúrbios Alimentares Funcionais Pediátricos (FPFDs) que o Roma V criou pra substituir o ARFID: a disfagia hipersensível, alimentação restritiva antecipatória, distúrbio da desregulação da fome e distúrbio alimentar medicamente desencadeado.

Fonte: Rosen R, Borrelli O, Faure C, Karrento K, Krishnan U, Nurko S, Rommel N, Silverman A, van Wijk M, Benninga M. Rome V Pediatric Upper Gastrointestinal Disorders of Gut-Brain Interaction. Gastroenterology 2026;170:1347-1366. https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(26)00128-9/fulltext?referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com%2F

Nessa edição você vai aprender:

  • Por que o Roma V propôs oficialmente eliminar o termo ARFID e o que substitui ele

  • Os critérios gerais dos Distúrbios Alimentares Funcionais Pediátricos (FPFDs), quem você pode diagnosticar e quem você ainda precisa investigar antes

  • Os 4 subtipos novos, cada um com critério próprio, gancho clínico distinto e abordagem terapêutica diferente

  • Por que 15% das crianças com queixa alimentar têm EoE (Esofagite Eosinofílica) e o que isso significa pra sua investigação

  • Por que dietas restritivas (FODMAP, sem glúten, sem lácteos) NÃO devem ser usadas como manejo inicial dessas crianças

  • A fala sugerida pra família que vai te poupar 20 minutos de consulta

Por que você deveria se importar?

Porque 5-20% das crianças têm distúrbio alimentar pediátrico e a esmagadora maioria passa pelo seu consultório antes de qualquer gastropediatra, fono ou psicólogo. E se a gente quiser ir mais fundo: 25-45% das crianças "em geral" têm algum problema de alimentação durante a infância, segundo os dados que o próprio Roma V cita.

Em cohorts pediátricas, 86% das crianças com problemas alimentares têm uma doença médica de base, então o pediatra de consultório está com razão quando investiga antes de rotular de "comportamental". Mas o tropeço é o oposto: a gente investiga, tudo dá normal, e fica sem diagnóstico pra criança. A família vai embora ouvindo "está tudo certo, é fase".

O ARFID do DSM-5 tentou cobrir esse buraco, mas, segundo o Roma V, falhou. Como falhou? Junta no mesmo guarda-chuva:

  • A criança que tem sensação de comida presa na garganta (problema sensorial)

  • A criança que tem medo de comer por causa de vômito anterior (problema ansioso-comportamental)

  • A criança que simplesmente não tem fome (problema de regulação hormonal/sinalização)

  • A criança que perdeu a habilidade de comer sólido depois de um RGE grave (problema de desenvolvimento de habilidade)

São 4 mecanismos DIFERENTES. Tratamento DIFERENTE. Encaminhamento DIFERENTE. Conversa com a família DIFERENTE.

O Roma V separou. E essa é a edição da semana.

Você acha que sabe, mas…

Tem uma frase que a gente fala há anos no consultório: "Toda criança seletiva passa por uma fase de comer pouco. Vai melhorar."

O Roma V olha pra essa frase e responde: não necessariamente.

Quando a queixa preenche os critérios objetivos (frequência ≥3x/semana, duração ≥1 mês, mais comprometimento nutricional ou comportamental específico), não é fase, é DGBI. E DGBI tem tratamento.

Segunda crença que cai: "Se a criança tá ganhando peso, não tem problema alimentar."

Errado. O critério geral de Distúrbios Alimentares Funcionais Pediátricos (FPFD) do Roma V tem 6 itens. Pode ter peso normal e ainda assim ser FPFD diagnosticável se tiver, por exemplo, dieta extremamente restrita ou se a refeição leva tanto tempo que prejudica a vida familiar/escolar. O peso não é o único parâmetro.

Terceira crença que cai: "Suspeita de problema alimentar funcional? Encaminha pra psicóloga."

Também errado, pelo menos, não direto. O Roma V deixa muito claro: tudo o que é estrutural ou de habilidade tem que ser avaliado e manejado ANTES de você rotular como funcional. Isso inclui:

  • Esofagite Eosinofílica (EoE): presente em 15% das crianças com queixas alimentares e em 25-50% das crianças com EoE têm disfagia/dificuldade alimentar. Endoscopia digestiva alta é "quase sempre recomendada" antes de cravar Distúrbios Alimentares Funcionais Pediátricos (FPFD)

  • Doença celíaca, tireoidopatia, anemia, eletrólitos, vitaminas (A, C, D, B12, folato, zinco)  todos devem estar no painel inicial conforme a história

  • Avaliação de disfunção orofaríngea (61% dos casos com problema alimentar têm essa raiz, não comportamental)

Então o caminho não é investiga TGI → se normal, vai pra psicóloga. O caminho é investigação estrutural e de habilidade → se tudo OK e os critérios fecham → diagnostica como Distúrbios Alimentares Funcionais Pediátricos (FPFD) com NOME certo e oferece o manejo correto pra cada subtipo.

E é aí que a quarta bomba cai: o termo ARFID deve ser eliminado segundo o painel do Roma V. Literalmente isso. "We propose that the term ARFID should be eliminated and replaced by more precise terms."

Doideira, né?

O que o Roma V mostrou (organizando por bloco do que MUDOU)

Publicado em 17 de fevereiro de 2026 no Gastroenterology (volume 170, página 1347-1366) pelo painel pediátrico do Roma V, o capítulo de TGI superior trouxe uma novidade conceitual gigante: pela primeira vez, distúrbios alimentares funcionais (FPFDs) têm critérios diagnósticos próprios em pediatria. Vou por blocos.

BLOCO 1 — O critério-guarda-chuva (G2) dos Distúrbios Alimentares Funcionais Pediátricos

Pra qualquer um dos 4 subtipos abaixo, o paciente precisa ter padrões alimentares alterados que:

  • (a) interferem na função (escolar, social, familiar)

  • (b) ocorrem pelo menos 3x por semana

  • (c) não podem ser atribuídos a diagnóstico médico ou de habilidade já adequadamente avaliado e manejado

+ pelo menos 1 dos 6 componentes específicos:

  1. Comprometimento nutricional (deficiência de micro ou macro nutriente)

  2. Uso de suporte nutricional enteral ou parenteral

  3. Comportamentos ativos ou passivos de evitação

  4. Dieta restrita/seletiva ou dieta não-desenvolvimentalmente apropriada usada pra controlar sintomas

  5. Ausência da auto-alimentação esperada pra idade

  6. Uso excessivo de estratégias rotineiras pra completar a refeição (mastigação prolongada, "puxar com líquido", ritmo lento)

Duração mínima: os critérios precisam estar preenchidos por pelo menos 1 mês antes do diagnóstico.

Note o ponto crucial: o comprometimento nutricional NÃO é obrigatório. Se a criança preenche um dos outros 5 itens, já é distúrbio alimentar funcional (FPFD).

BLOCO 2 — Disfagia Hipersensível (HD, Hypersensitive Dysphagia)

A criança que sente comida "presa" na garganta ou no peito, mas sem nenhuma anormalidade anatômica, motora ou de trânsito demonstrável.

Critérios diagnósticos:

  1. Sem anormalidades estruturais ou de mucosa em faringe ou esôfago

  2. Sem distúrbio motor esofágico maior

  3. Sem anormalidade de trânsito do bolo (avaliado por manometria de alta resolução com impedância ou esofagograma)

Particularidade pediátrica: inclui sensações tanto orofaríngeas quanto esofágicas (porque a criança nem sempre diferencia onde "prende"), e inclui crianças que não colocam comida na boca, mastigam e cospem, ou bebem muito líquido pra "ajudar a engolir".

Quanto pesa entre os antigos "ARFID"? 11-21% das crianças que recebiam o rótulo ARFID tinham, na verdade, disfagia hipersensível.

BLOCO 3 — Alimentação Restritiva Antecipatória (ARF, Anticipatory Restrictive Feeding)

A criança que tem MEDO de comer porque já teve experiência aversiva (vômito, dor, engasgo, sensação de prender, sufocamento, náusea, distensão).

Critérios diagnósticos:

Distúrbio dirigido pela antecipação de experiência aversiva + 1 ou mais de:

  1. Perda significativa de peso (ou falha em ganhar peso esperado em crianças)

  2. Deficiência nutricional significativa

  3. Dependência de nutrição enteral ou suplemento nutricional oral

  4. Interferência marcada com outras funções psicossociais

Sinal clínico clássico: a criança elimina grupos alimentares inteiros, texturas específicas (líquidos, semi sólidos, sólidos), ou temperaturas específicas. Pode verbalizar ansiedade, nojo ou medo ao se aproximar de comidas novas ou já associadas a sintomas.

O que diferencia do Distúrbio Alimentar Funcional Medicamente Desencadeado (MTFFD) do bloco 5: a alimentação restritiva antecipatória (ARF) é MEDO, o Distúrbio Alimentar Funcional Medicamente Desencadeado (MTFFD) é PERDA DE HABILIDADE. Vou falar mais sobre isso adiante.

Quanto pesa entre os antigos "ARFID"? 21-68% das crianças com rótulo ARFID tinham, na verdade, alimentação restritiva antecipatória (ARF) com componente sensorial E >80% dessas crianças têm DGBI concomitante com sintomas GI subjacentes (refluxo, dispepsia, dor abdominal funcional), fechando o ciclo "tive sintoma → tenho medo de comer → restrinjo → fico mais ansiosa → o ciclo continua.

BLOCO 4 — Distúrbio da Desregulação da Fome (Hunger Dysregulation Feeding Disorder)

Aqui o Roma V criou um diagnóstico novo PRA UM CENÁRIO QUE A GENTE VÊ TODO DIA mas nunca tinha nome. Dois subtipos:

1. Drive de fome REDUZIDO

  • A criança não come voluntariamente alimentos calóricos apropriados pra idade após período de jejum

  • Precisa de agendamento das refeições pra ter ingesta adequada

  • Não há a sensação interna de "estou com fome"

2. Drive de fome EXCESSIVO

  • A criança não consegue parar de comer mesmo após terminar a refeição

  • Come excessivamente entre as refeições, mesmo depois de comer uma refeição completa

  • "Beliscar o dia inteiro" não como hábito cultural, mas como descontrole

Importante: o distúrbio da desregulação da fome se manifesta cedo, desde a lactância. Então atenção àquele bebê que não mama nada, mas também àquele que mama muito.

Quanto pesa entre os antigos "ARFID"? 43-82% das crianças com rótulo ARFID tinham, na verdade, distúrbio de desregulação da fome subtipo reduzido. É o subgrupo MAIS COMUM do antigo ARFID.

BLOCO 5 — Distúrbio Alimentar Funcional Medicamente Desencadeado (MTFFD)

A criança que tinha uma doença real (DRGE grave, EoE, infecção, intercorrência cirúrgica) e desenvolveu dificuldade alimentar — mas a doença já foi tratada/resolvida, e a dificuldade alimentar continua.

Critérios diagnósticos:

  1. Desenvolveu no contexto de uma condição médica, mas a disfunção alimentar persiste após a condição ter sido resolvida ou adequadamente tratada

  2. Manifesta como regressão ou parada da progressão de padrões/habilidades alimentares previamente alcançados e que não pode ser atribuída à condição médica residual

Apresentação clássica: criança que tinha DRGE ou EoE no fim do primeiro ano de vida, foi adequadamente tratada (mucosa cicatrizada, sem retenção de bolo), mas continua só aceitando líquidos ou perdeu a mastigação que já tinha. Não é medo, é perda da habilidade que já tinha sido adquirida.

Sutileza importante que o Roma V faz questão de explicar:

  • Se a criança tem EoE em atividade e não come sólido → NÃO é distúrbio alimentar funcional (FPFD), é distúrbio alimentar pediátrico medicamente desencadeado, mas a parte "funcional" não se aplica porque a doença está ativa

  • Se a criança teve EoE, foi tratada com sucesso, e desenvolveu medo de impacção → é alimentação restritiva antecipatória

  • Se a criança teve EoE grave, foi tratada com sucesso, e continua só com líquidos sem ter perdido peso por medo, mas porque "esqueceu" como mastigar → é distúrbio alimentar funcional medicamente desencadeado

São 3 cenários muito diferentes pra "criança com EoE prévia que não come sólido". Diagnóstico diferente, manejo diferente.

BLOCO 6 — Investigação obrigatória ANTES de cravar distúrbio alimentar funcional (FPFD)

O Roma V é categórico: endoscopia digestiva alta é "quase sempre recomendada" antes do diagnóstico de  distúrbio alimentar funcional pediátrico (FPFD), porque a EoE mimetiza muito FPFD.

Os números pra você guardar:

  • 25-50% das crianças com EoE têm disfagia ou dificuldade alimentar

  • 15% das crianças com queixa alimentar têm EoE diagnosticável na endoscopia

Painel laboratorial inicial:

  • Hemograma, eletrólitos

  • Sorologia pra doença celíaca

  • Função tireoidiana

  • Conforme história: ferro, vitamina A, C, D, B12, carnitina, folato, função hepática, tiamina, zinco

E o ponto crítico: avaliação de habilidades alimentares com fono é essencial. Em estudos, 61% das crianças com problema alimentar tinham disfunção orofaríngea (não comportamental, não funcional e sim estrutural-funcional de habilidade). Sem essa avaliação, você pode tratar o errado.

O que muda pra você, pediatra de consultório

Primeiro: você continua sendo pediatra de consultório. Avaliação multidisciplinar dos Distúrbios Alimentares Funcionais Pediátricos (FPFDs) é da equipe (gastro pediátrico, fonoaudiólogo, psicólogo, nutricionista). Mas você é a porta de entrada, quem identifica, quem investiga primeiro, quem encaminha certo, quem conversa com a família. Vamos no que muda já amanhã:

1. Quando a queixa for "criança seletiva", aplique os critérios antes de despachar como "fase". Padrão ≥3x/semana, duração ≥1 mês, + 1 dos 6 componentes específicos. Se fecha, é Distúrbio Alimentar Funcional Pediátrico (FPFD), não é fase. Documente na anamnese os componentes que a criança preenche.

2. ANTES de qualquer diagnóstico funcional, investigue o medicamente investigável. Painel mínimo: hemograma, eletrólitos, função tireoidiana, sorologia celíaca, vitaminas relevantes pela história. Endoscopia digestiva alta com biópsia (incluindo coleta de fragmentos pra contagem eosinofílica) deve ser feita ou solicitada, 15% terão EoE. E mais, EoE pode ser diagnosticada EM QUALQUER IDADE pediátrica, inclusive em lactentes. Não existe idade mínima formal. O critério é suspeita clínica persistente, não idade. 

3. Tente CLASSIFICAR a queixa em um dos 4 subtipos.

Subtipo (sigla)

Mecanismo central

Pergunta-chave pra família

Conduta inicial no consultório

HD — Disfagia Hipersensível

Sensação de comida presa sem alteração estrutural ou de trânsito esofágico

"Você sente a comida prender na garganta ou no peito?"

Exposição alimentar gradual + reestruturação cognitiva

ARF — Alimentação Restritiva Antecipatória

Medo de comer baseado em experiência aversiva prévia (vômito, dor, engasgo)

"Você tem medo de algum alimento? O que aconteceu da última vez que você comeu?"

Exposição gradual repetida + manejo do DGBI gatilho

Desregulação da Fome — subtipo REDUZIDO

Drive de fome insuficiente — sem sinal interno de fome

"Quanto tempo você fica sem sentir fome?"

Refeições em horário fixo (não por demanda) + ciproheptadina (casos selecionados)

Desregulação da Fome — subtipo EXCESSIVO

Drive de fome aumentado — incapacidade de saciar

"Você precisa esconder comida pra não comer entre refeições?"

Controle ambiental + manejo médico das pistas de fome

MTFFD — Medicamente Desencadeado

Perda ou regressão de habilidades alimentares após a doença médica já estar resolvida/tratada

"Você consegue dizer exatamente quando o problema começou? Antes disso, você comia normalmente?"

Equipe multidisciplinar (gastro pediátrico + fono deglutólogo + psicólogo)

4. NÃO indique dietas restritivas (low FODMAP, sem glúten, sem lácteos) como tratamento de Distúrbio Alimentar Funcional Pediátrico (FPFD). O Roma V foi explícito: essas dietas podem AUMENTAR a ansiedade ligada à refeição e piorar ou desencadear FPFD. Use somente quando há indicação médica específica (celíaca confirmada, alergia confirmada, EoE com terapia eliminatória direcionada).

5. NÃO encaminhe pra sonda nasoenteral como primeiro passo. A maioria dos pacientes não precisa de suporte enteral. A literatura mostra que 20-46% das crianças com "ARFID" estavam em sonda enteral, mas a tendência atual é abandonar essa estratégia em favor de terapia comportamental multidisciplinar. Nutrição parenteral NÃO é recomendada pra Distúrbio Alimentar Funcional Pediátrico (FPFD).

6. Encaminhe pra equipe multidisciplinar nos casos:

  • Distúrbio Alimentar Funcional Pediátrico (FPFD) confirmado com comprometimento nutricional ou alteração de sinais vitais (FC baixa, hipotensão → essa criança pode precisar de reabilitação nutricional internada)

  • Suspeita de comorbidade psiquiátrica (ansiedade, depressão, TOC, TDAH)

  • Distúrbio Alimentar Funcional Medicamente Desencadeado (MTFFD), porque quase sempre exige fono

  • Alimentação Restritiva Antecipatória (ARF) resistente a manejo inicial em consultório

7. Avalie o bem-estar da FAMÍLIA inteira. O Roma V faz questão de pontuar: distúrbio alimentar aumenta estresse do cuidador, diminui confiança parental e gera interações negativas pai-filho. Pergunte como tá a mãe. Como tá o casamento. Como tá o irmão que assiste à briga toda noite. Faz parte do manejo.

8. Mude seu vocabulário (em prontuário, em conversa com a família, em encaminhamento). Pare de escrever "ARFID" no encaminhamento. O Roma V propôs oficialmente eliminar esse termo. Escreva o subtipo correto. Isso direciona o especialista pra abordagem correta direto, sem retrabalho.

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

Documento: Rome V Pediatric Upper Gastrointestinal Disorders of Gut-Brain Interaction. Gastroenterology 2026;170:1347-1366. Publicado em 17 de fevereiro de 2026

ARFID acabou (palavras do próprio ROMA V) sendo substituído por 4 diagnósticos específicos pra pediatria

Critério-guarda-chuva: padrões alimentares alterados ≥3x/semana, ≥1 mês, não atribuíveis a causa médica/habilidade conhecida + 1 dos 6 componentes (nutrição, suplementação, evitação, dieta restrita, ausência de auto-alimentação, ou estratégias excessivas pra completar refeição)

Os 4 subtipos:

  • HD (Disfagia Hipersensível): sensação de comida presa sem alteração estrutural/motora, correspondendo a 11-21% dos antigos ARFID

  • ARF (Alimentação Restritiva Antecipatória): MEDO de comer baseado em experiência aversiva, com 21-68% dos casos antigos de ARFID

  • Distúrbio de Desregulação da Fome: reduzido ou excessivo, com 43-82% dos casos

  • MTFFD (Medicamente Desencadeado): perda de habilidade após doença médica resolvida

15% das crianças com queixa alimentar têm EoE → endoscopia digestiva alta com biópsia é "quase sempre recomendada" antes de cravar FPFD

5-20% das crianças têm distúrbio alimentar pediátrico; 86% dos casos têm causa médica identificável, então investigue antes

Dietas restritivas (FODMAP, sem glúten, sem lácteos) podem PIORAR ansiedade relacionada à refeição → não use como manejo inicial de FPFD

Nutrição parenteral NÃO é recomendada pra FPFD; suporte enteral é exceção, não regra

NÃO escreva mais "ARFID" no prontuário, escreva o subtipo correto, isso muda o tratamento

Tem dia que a gente abre um documento internacional novo e fica naquela: "Mas isso muda mesmo o consultório?"

Esse muda. Porque a queixa de "criança que come pouco" é uma das 5 mais frequentes do consultório do pediatra geral. E até fevereiro de 2026 a gente só tinha o DSM-5 e a palavra "frescura".

Agora a gente tem critério objetivo, subtipo específico, tratamento direcionado e, talvez o mais importante, uma mensagem nova pra família: "isso tem nome, tem caminho e vocês não estão errados em terem se preocupado."

A criança que come 3 coisas, a refeição que vira guerra, o irmão que chora de raiva, a mãe que cozinha duas vezes, tudo isso ganhou contexto. E o pediatra de consultório voltou pra cabeça da fila desse cuidado, depois de anos sendo empurrado pra ponta da fila com "encaminha pra psicóloga".

E lembre-se: nossa profissão é um trabalho coletivo. A gente trabalha muito melhor em "time" do que sozinho.

Então, qual a sua forma de ajudar um colega a perceber esse ponto cego?

Ó, quer uma sugestão fácil, rápida e gratuita? Manda a inscrição da nossa revista científica pra ele/ela. Custa zero reais (pra você e pro colega) e pode mudar a forma como ele/ela vai conduzir a próxima consulta de "ela come pouco".

No mais, nos vemos na semana que vem, rigorosamente, nesse mesmo local!

Beijinhos científicos, Julie do PDC 💛

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