#29: 71% de proteção... que virou 0% depois de 2020

A pergunta que você precisa adicionar às suas consultas

EDIÇÃO #29

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

A pandemia foi embora, mas deixou um "presentinho"... 🎁😬

Você já parou pra notar que de uns anos pra cá mais meninas de 7-8 anos estão aparecendo no consultório com telarca?

Você é do time que já pensou: "nossa, será impressão minha ou tá tendo mais puberdade precoce?"

Pois é. Não era impressão sua, não.

A Itália foi o primeiro país a entrar em lockdown, e também o primeiro a perceber o que estava acontecendo. Os endocrinologistas pediátricos de lá começaram a ver 2, 3 vezes mais casos de puberdade precoce central. Aí a Turquia relatou a mesma coisa. Depois os EUA. Depois a China.

E sabe o que é pior? Não voltou ao normal.

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Atividade física, vitamina D e o início da puberdade: o que mudou depois da pandemia

Fonte: Liu B, Wu C, Qin J. Analysis of bibliometric and cross-cycle NHANES data: The effects of physical activity and vitamin D on pubertal onset in children aged 6–14 and the differences before and after the pandemic. Medicine 2025;104:49. - Acesse o artigo completo aqui

  • Por que você deveria se importar?

  • Você acha que sabe, mas…

  • O que o estudo mostrou

  • Como orientar na prática

  • Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

But first…

🎧 NOVIDADE: The Peds Journal agora em PODCAST!

Você pediu, a gente ouviu (literalmente rs).

A partir de quarta-feira, dia 18/02, o The Peds Journal ganha uma versão em podcast! Pra você ouvir no carro, na academia, entre uma consulta e outra.. onde e quando quiser.

O mesmo conteúdo. A mesma profundidade. As mesmas piadas (para a alegria de uns e tristeza de outros kkk). Só que agora também nos seus ouvidos.

Fica de olho aqui que vamos avisar quando o primeiro episódio estiver no ar! 🚀

Gostaram da novidadeeeee?

Por que você deveria se importar?

Porque puberdade precoce não é só "menstruar cedo" ou "desenvolver antes das(os) amiguinhas(os)"... É uma cascata de consequências que acompanha essa criança pela vida inteira.

Estamos falando de baixa estatura final, por epífises que fecharam antes da hora. De maior risco de obesidade e síndrome metabólica na vida adulta. De problemas psicossociais, bullying, autoimagem distorcida. De risco aumentado de câncer de mama décadas depois.

E tem mais: quando uma menina de 7 anos começa a desenvolver mamas, ela não está emocionalmente preparada pra lidar com isso.

O corpo vai na frente, a cabeça fica pra trás. Os pais entram em pânico. E quem precisa acolher, orientar e encaminhar corretamente? Isso mesmo. Nós!

O pediatra de consultório é quem vê essa criança todo ano. É quem pode perceber os primeiros sinais.

E, mais importante: é quem pode prevenir, orientando sobre os fatores modificáveis ANTES de precisar encaminhar pro endócrino.

Esse estudo muda a forma como a gente pensa prevenção. Porque mostrou que o que funcionava antes da pandemia não funciona mais do mesmo jeito…

Você acha que sabe, mas…

Muitos ainda associam a puberdade precoce a uma questão puramente genética ou hormonal… algo que "acontece" e pronto.

Mas a ciência dos últimos anos mostrou que fatores ambientais e comportamentais têm um peso enorme nessa fisiopatologia. E a pandemia foi o grande experimento natural que comprovou isso (infelizmente rs)

Antes de 2020, a literatura já apontava para alguns fatores de risco modificáveis como obesidade, sedentarismo e exposição a disruptores endócrinos.

Mas havia quem duvidasse da força dessas associações. Aí veio o COVID, trancou as crianças em casa, aumentou o tempo de tela, reduziu a atividade física, e.. surpresa: os casos de puberdade precoce dispararam!

Um estudo com mais de 100 meninas com suspeita de puberdade precoce mostrou que, das pacientes vistas nos primeiros 15 meses de pandemia, quase 90% tinham parado TODA atividade física.

O ganho de peso mediano foi de 2kg em 6 meses. O tempo de tela? Explodiu.

Uma outra crença bastante comum é de que a vitamina D só importa para a saúde dos ossos. Errado.

A vitamina D atua como regulador neuroendócrino e ovariano, e sua deficiência está SIM associada a alterações no timing puberal.

Meta-análises mostram que crianças com puberdade precoce têm níveis de vitamina D significativamente mais baixos (diferença média de -1,16 ng/ml) e que a deficiência aumenta o risco em mais de 2 vezes (OR = 2,25).

Chocante, né? Mas calma que não acabou: a relação entre atividade física e puberdade não é só direta.

Parte do efeito PROTETOR do exercício passa justamente pela vitamina D… seja pela exposição solar durante atividades ao ar livre, seja por mecanismos metabólicos.

E agora que você entendeu a importância desses fatores externos na puberdade precoce, vamos ao estudo!

O que o estudo mostrou

“Será que atividade física e vitamina D realmente PROTEGEM contra puberdade precoce? E se protegem, isso mudou depois da pandemia?”

Pra responder a essas perguntas, os pesquisadores utilizaram o NHANES (National Health and Nutrition Examination Survey), o maior banco de dados de saúde dos EUA, que acompanha milhares de pessoas com exames físicos, laboratoriais e questionários padronizados todos os anos.

Foram analisados dados de 3.571 crianças de 6-14 anos que tinham informações completas de hormônios sexuais, vitamina D e nível de atividade física.

E dois períodos foram comparados: pré-pandemia (2013-2016) e pós-pandemia (2021-2023).

Aí é que vem a parte interessante….

Achado #1: Atividade física e vitamina D protegem contra puberdade precoce (mas de formas diferentes)

Os dados gerais confirmaram a suspeita: crianças mais ativas e com níveis maiores de vitamina D tinham menos chance de estar em puberdade.

Cada "ponto" a mais de atividade física reduzia em 17% a chance de puberdade precoce.

Achado #2: Existe um "número mágico" da vitamina D

Aqui vem algo importante pra sua prática: a vitamina D tem um efeito de saturação.

O benefício aumenta até chegar em ~30 ng/mL (ou 72,5 nmol/L). Passou disso? Não tem benefício adicional contra puberdade precoce.

Ou seja: não adianta bombar de vitamina D (principalmente aquela, manipulada, que intoxica,, da pediatria ~integrativa rs).

O importante é não estar deficiente. Chegou em 30? Ótimo. Subir pra 50, 60, 80 não vai proteger mais - pelo menos não de acordo com as evidências que temos atualmente.

Achado #3: O efeito da atividade física SUMIU depois da pandemia

Esse é o achado que me deixou de queixo caído (e triste).

Antes da pandemia, crianças muito ativas tinham 71% menos chance de entrar em puberdade precoce quando comparadas às sedentárias.

Crianças moderadamente ativas tinham 37% menos chance. A dose-resposta era clara: quanto mais atividade, mais proteção.

Depois da pandemia? Essa proteção praticamente desapareceu. Crianças muito ativas agora tinham apenas 3% menos chance (uma diferença que não significa nada estatisticamente falando)

E por que isso aconteceu?

Os autores propõem uma explicação interessante: não é que o exercício deixou de funcionar biologicamente. É que o tipo de atividade física mudou.

Antes da pandemia: atividades estruturadas, em grupo, ao ar livre, com regularidade.

Depois da pandemia: atividades fragmentadas, em casa, muitas vezes indoor, sem a mesma consistência.

Essa mudança pode ter enfraquecido os mecanismos metabólicos e anti-inflamatórios pelos quais a atividade física protegia contra puberdade precoce.

Além disso, o contexto mudou: mais estresse, mais tempo de tela (luz azul à noite), mais exposição a disruptores endócrinos (álcool gel com triclosan, por exemplo), padrões de sono alterados...

A atividade física pode não conseguir "compensar" tudo isso sozinha.

Achado #4: A vitamina D continuou funcionando

Enquanto a atividade física perdeu o efeito, a vitamina D manteve sua associação protetora. O threshold de 30 ng/mL continuou valendo antes e depois da pandemia.

Ou seja: bora manter esses níveis adequados!

Como orientar na prática

1. Nas consultas de puericultura, pergunte sobre atividade física de forma específica:

  • "Quantas vezes por semana ela faz atividade física?"

  • "É ao ar livre ou indoor?"

  • "É estruturada (aula, esporte) ou livre?"

  • "Quanto tempo por dia passa em frente a telas?"

2. Monitore vitamina D em crianças de risco:

  • Sedentárias

  • Com obesidade ou sobrepeso

  • Com pouca exposição solar

  • Com sinais de puberdade precoce

Meta: Manter acima de 30 ng/mL (75 nmol/L).

3. Avalie sinais de puberdade precoce nas consultas de rotina:

  • Meninas: telarca antes dos 8 anos, pubarca antes dos 8 anos

  • Meninos: aumento testicular antes dos 9 anos

4. Oriente as famílias sobre o "combo" pós-pandemia:

  • Atividade física REGULAR e preferencialmente AO AR LIVRE

  • Limite de tela (especialmente à noite)

  • Sono adequado

  • Alimentação equilibrada (controle do IMC)

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

✅ Casos de puberdade precoce aumentaram 2-3x durante a pandemia — e não voltaram ao normal.

✅ Atividade física e vitamina D são fatores protetores modificáveis.

✅ O efeito protetor da atividade física enfraqueceu no período pós-pandemia (provavelmente porque mudou o TIPO de atividade)

✅ Existe um threshold de vitamina D: ~30 ng/mL (72,5 nmol/L). Acima disso, não há benefício adicional. Mas abaixo, há risco aumentado.

✅ Não basta "se mexer" → a atividade precisa ser regular, estruturada e preferencialmente ao ar livre.

✅ Puberdade precoce não é só genética, fatores ambientais e comportamentais pesam MUITO.

Se você leu até aqui, parabéns! Você agora entende algo que muitos colegas ainda não perceberam: a pandemia deixou marcas no desenvolvimento puberal das crianças, e a gente ainda está vendo as consequências...

A boa notícia? São fatores modificáveis.

Uma puericultura bem feita, com orientação sobre atividade física, controle de tela e monitoramento de vitamina D, podem fazer diferença real na prevenção.

Ah, e conhecimento bom é aquele que a gente divide, né?

Então manda essa edição pra aquela colega que está vendo mais casos de puberdade precoce no consultório. Ela vai agradecer!

Na próxima semana tem mais ciência traduzida pra sua prática, hein?!

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC 💛