#23: Bebida doce, verdade amarga

Evidências novas para uma velha polêmica.

EDIÇÃO #23

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

Tem coisa pior que discutir com vó sobre o tal do “suquinho” pra bebê?!

Ahhh tem sim: o risco cardiometabólico que vem junto com o suquinho querido de todo dia.. é difícil, mas conhecer as evidências é a melhor forma de convencer as pessoas, e nosso papel é 90% convencimento. Bebida açucarada faz mal. E hoje a gente vai entender por que.

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Bebidas açucaradas e saúde cardiometabólica, hepática, renal e mental em crianças

Fonte: Sugar-Sweetened Beverages and Adverse Human Health Outcomes: An Umbrella Review of Meta-Analyses of Observational Studies [Acesse o documento completo aqui]

  • Por que você deveria se importar?

  • Você acha que sabe, mas…

  • O que o estudo avaliou

  • O que os resultados mostraram

  • Implicações práticas para pediatras

  • Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

Por que você deveria se importar?

Porque, mesmo com toda a evolução da pediatria, o açúcar líquido continua sendo um dos principais motores modernos de adoecimento crônico.. 

e ele entra na rotina das crianças exatamente pelos caminhos mais inocentes: suco “natural”, achocolatado, refresco, chás adoçados, “vitamininha”, e até isotônicos.

E embora algumas pessoas ainda fiquem chocadas quando falamos que a SBP recomenda zero suco antes dos 2 anos (mesmo os “refrescos” de fruta rs, pois é…), isso não caiu do céu.

Isso vem de ciência. E muita ciência, diga-se de passagem.

E esse estudo gigantesco que estamos analisando hoje reúne o que existe de mais atualizado sobre o impacto de bebidas açucaradas em:

  • Risco cardiometabólico

  • Função hepática

  • Saúde renal

  • Comportamento e saúde mental

Ou seja: um único hábito pode afetar múltiplos sistemas, e muitas vezes, passa por “inocente”.

E não para por aí…

Você acha que sabe, mas…

O suco virou quase sinônimo de cuidado, afeto e… vitamina C (mesmo que ninguém saiba exatamente por quê rs).

Mas a ciência já está gritando há um bom tempo: líquido açucarado é líquido açucarado, seja no copinho de plástico, na caixinha ou espremido na frente da criança enquanto você jura que está fazendo o certo.

Outro clássico: “Ah, mas é só um pouquinho.” Spoiler: é justamente o “pouquinho de todo dia” que aumenta risco de depressão, ansiedade, agressividade, esteatose hepática, nefrolitíase, diabetes tipo 2 e mais uma lista que parece até brincadeira… mas veio inteira dessa revisão.

E ainda tem o argumento que reina soberano nas consultas: “Mas doutora(o), esse é 100% fruta!”  

Como se isso anulasse o fato de que o suco entrega para o corpo infantil um tsunami de açúcar sem fibra, sem freio e sem aviso prévio. A laranja que demoraria 10 minutos pra ser comida vira três goles que chegam ao fígado na velocidade 5G..

E só para fechar o caixão da ilusão: desde 2024, a SBP orienta que suco (mesmo natural) só deve ser oferecido depois dos DOIS anos…, e mesmo assim com moderação.

E não, gente.. não é “chatice”, não é “modinha”, não é que estão “querendo estragar a infância”.

É apenas… a ciência mostrando o que faz mal. E nós, como bons médicos, juramos nunca fazer o mal, mas ser conivente com algo que faz é também quebrar juramento. prontofalei.

O que o estudo avaliou

Essa revisão de metanálises analisou exclusivamente bebidas adoçadas com açúcar adicionado, as famosas SSBs (sugar-sweetened beverages).

Na prática, isso inclui: refrigerantes, bebidas esportivas, bebidas energéticas, chás adoçados, cafés adoçados, refrescos adoçados e outras bebidas industrializadas que adicionam açúcar à formulação.

O objetivo do estudo foi reunir, em uma única análise-síntese, o que as melhores metanálises observacionais já mostraram sobre o consumo dessas bebidas e o risco de uma série de desfechos cardiometabólicos e neurocomportamentais, como:

  • Diabetes tipo 2,

  • Doença cardiovascular,

  • Obesidade,

  • Doença hepática gordurosa não alcoólica,

  • Nefrolitíase,

  • E em crianças e adolescentes: tristeza, agressividade, ansiedade e sintomas de desatenção/hiperatividade.

O estudo também verificou se existiam associações consistentes entre o volume consumido e o risco, mas, como qualquer revisão de estudos observacionais, não buscou determinar causalidade, apenas consolidar o padrão de associação descrito na literatura disponível.

Em resumo: o estudo avaliou somente bebidas com açúcar adicionado, e investigou como esse consumo se relaciona a múltiplos desfechos de saúde física e mental em diferentes faixas etárias.

O que os resultados mostraram

A revisão mostra, de forma consistente, que o consumo de bebidas com açúcar adicionado está associado a uma série de desfechos negativos de saúde (e essas associações aparecem repetidamente em diferentes metanálises incluídas)

No campo cardiometabólico, o padrão é claro: maior consumo de SSBs = maior risco de diabetes tipo 2 e doença cardiovascular, além de associação com obesidade e doença hepática gordurosa não alcoólica.

O artigo também destaca associações entre SSBs e nefrolitíase, mostrando que o excesso de açúcar líquido pode contribuir para alterações metabólicas que favorecem a formação de cálculos renais.

E indo além do “físico”, a revisão reúne evidências de impactos neurocomportamentais em crianças e adolescentes.

Diversos estudos apontam que maior consumo dessas bebidas se associa a mais ansiedade, tristeza, agressividade e sintomas de desatenção/hiperatividade.

Claro, é fundamental ressaltar que os estudos avaliados são observacionais. Ou seja, não podemos falar em causalidade.

Porém, quando múltiplas metanálises diferentes encontram o mesmo sentido de associação, a mensagem é clara: o padrão não é aleatório.

Há um sinal consistente de risco que justifica (e muito!!) a orientação de reduzir o consumo dessas bebidas em todas as faixas etárias.

Implicações práticas para pediatras

Na prática, o recado dessa revisão é direto: bebida açucarada não é detalhe de dieta, é fator de risco de saúde pública.

Se elas aparecem sempre no dia a dia da criança, isso não é apenas “estilo de vida da família”, mas um ponto de atenção clínica que merece entrar de forma ativa na anamnese.

Assim como perguntamos sobre sono, telas e atividade física, faz sentido incluir de rotina: “O que ele costuma beber ao longo do dia?” e “Com que frequência consome refrigerantes, chás adoçados, bebidas prontas ou energéticas?”

Orientações específicas e aplicáveis também são fundamentais: negociar com a família a substituição progressiva de bebidas açucaradas por água, reduzir a disponibilidade em casa, evitar uso de refrigerantes e similares como recompensa, limitar consumo em festas a momentos pontuais e, principalmente, evitar que essas bebidas virem rotina diária.

Em adolescentes, vale também abordar o uso de energéticos e bebidas esportivas, que muitas vezes entram como “performance”, mas carregam a mesma lógica de açúcar líquido.

Por fim, o artigo reforça algo importante para o nosso discurso: quando formos conversar com as famílias, é honesto dizer que não estamos falando em “causa e efeito” comprovado em ensaios clínicos, mas em um conjunto sólido de evidências observacionais que apontam para o mesmo lado.

Reduzir consumo de bebidas adoçadas é uma medida de baixo custo, baixo risco e altíssimo potencial preventivo, especialmente na infância e adolescência.. e, na dúvida, é muito mais seguro proteger a criança agora do que correr atrás das consequências depois.

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

 Há associação consistente entre consumo de SSBs e risco aumentado de: DM2, doença cardiovascular, obesidade, doença hepática não alcoólica, nefrolitíase

✅ Em crianças e adolescentes, maior consumo se associa a mais: ansiedade, tristeza, agressividade, desatenção/hiperatividade

✅ São estudos observacionais: não provam causalidade, mas mostram um padrão sólido

✅ O risco está no consumo habitual, não apenas nas exceções!

✅ Reduzir SSBs é uma intervenção simples, segura e de alto impacto preventivo

✅ E reforçando: a SBP orienta evitar sucos (mesmo os 100% fruta) antes dos 2 anos, embora eles não tenham sido avaliados neste estudo.

E se você chegou até aqui, parabéns… seu raciocínio clínico acabou de queimar mais glicose do que a criança que toma suco no café da manhã, no almoço e no lanche da tarde. 😂

Brincadeiras à parte, você é parte da minoria de pediatras que realmente se atualiza e encara de frente temas que dão discussão (e muita!) na prática diária.

E já se prepara porque 2026 promete ser um ano de discussões ainda mais profundas sobre prevenção, alimentação e saúde mental na infância… e, claro, quem estiver no PDC vai estar sempre na frente.

Nos vemos semana que vem, pra última News de 2025… mas ao invés de ficar triste, aproveita e compartilhar o link abaixo com algum colega que preciiisa ter acesso a esse conteúdo toda semana, também!

Baita presente de natal, hein?! kkkk

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC 💛