#36: Cólica não existe mais

Calma, o bebê ainda chora. Mas agora tem nome certo.

EDIÇÃO #36

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

Os Critérios de Roma V chegaram na pediatria e com eles chegou o fim oficial da "cólica”

Novos diagnósticos que antes só existiam em adultos, e uma nova forma de nomear o que você já sabia, mas não conseguia diagnosticar.

São 11 condições revisadas em uma publicação histórica. O bebê que não para de chorar ganhou um novo nome. A criança com dor abdominal contínua e intratável ganhou um diagnóstico. E a família que vive com aquela sensação de que "o médico não achou nada" pode ouvir uma resposta diferente agora. Tá bom pra você? Rs

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Critérios de Roma V — novos diagnósticos e critérios para Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro (DGBI) pediátricos do trato gastrointestinal inferior e vias biliares

Fonte: Di Lorenzo C, Saps M, Chumpitazi BP, Rajindrajith S, Staiano A, Thapar N, van Tilburg M, Velasco-Benítez C, Vlieger A. Lower and Biliary Disorders of Gut-Brain Interaction: Child/Adolescent. Gastroenterology, 2026. doi: https://doi.org/10.1053/j.gastro.2026.01.036

Nessa edição você vai aprender:

  • Por que "distúrbio funcional" está virando linguagem do passado (e o que o DGBI muda na sua conversa com as famílias)

  • O que aconteceu com a "cólica"

  • Quais diagnósticos Roma V trouxe para a pediatria pela primeira vez e que antes você não tinha como nomear

  • O que muda na prática com constipação funcional, diarreia funcional e incontinência fecal não retentiva

Por que você deveria se importar?

Porque os Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro (DGBI) estão entre as queixas mais comuns de toda a gastroenterologia pediátrica (e ouso dizer que de toda a pediatria rs)

Só a síndrome do intestino irritável (SII) afeta entre 1,9% e 10,4% das crianças em idade escolar em todo o mundo.

E a famooooosa (e temida) "cólica", que agora tem nome oficial, afeta entre 2 a quase 20% dos lactentes.

E se somarmos todos os diagnósticos desse espectro, eles sem sombra de dúvidas representarão uma parcela enorme do seu consultório. “Apenas” por isso hehehe

Mas eu vou além: todo pediatra de consultório já sofreu em dar o diagnóstico de “distúrbio funcional”... soa como ausência de diagnóstico. Mas não é. Nunca foi. Só faltava o nome certo (e o peso que ele carrega).

E os Critérios de Roma V chegaram pra reformular essa história, também. Porque agora o nome mudou: não é mais "distúrbio funcional gastrointestinal", mas sim “DGBI", o Distúrbio da Interação Intestino-Cérebro.

E esse nome, minha gente, muda tuuuuudo na narrativa com a família!

Pois é, meu povo, muitas mudanças.. e o artigo que a gente vai dissecar hoje é um dos três que compõem os novos Critérios de Roma V pediátricos, e cobre os distúrbios do trato GI inferior e das vias biliares.

E posso falar? Essa edição é daquelas que você NÃO VAI SE PERDOAR se perder…

Você acha que sabe, mas…

Tem muito pediatra pensando que os Critérios de Roma são só para pesquisa e não mudam nada no dia a dia do consultório… 

Tem muito pediatra que nem sabe o que são Critérios de Roma..

E tem você, leitora do TPJ, que sabe da importância que esses critérios tem, e que eles são o framework diagnóstico que embasa as guidelines do ESPGHAN e da NASPGHAN (sim, as mesmas que orientam seu tratamento de constipação, SII e dor abdominal funcional) 

Ou seja, se o guideline usa critério de Roma, você também está usando (ou pelo menos deveria) na sua prática. 

E portanto, atualizar para o Roma V é atualizar sua conduta. 

E sim, uma das maiores atualizações do Roma V, a que ta causando mais burburinho, foi a extinção da “cólica do lactente". 

O que os pesquisadores colocaram é que a palavra "cólica" vem de cólon, implicando, portanto, que a origem da dor está no cólon. Só que isso nunca foi provado. 

Pelo contrário, a gente sabe que a etiologia da cólica é muito mais complexa e envolve muitas outras questões que não só o intestino.

Logo, o comitê do Roma V aposentou o termo exatamente por isso, e criou então a Síndrome de Distress (com a melhor tradução talvez sendo Desconforto) do Lactente. 

Um nome que reflete o que a ciência hoje sabe: que é uma condição com etiologia  multifatorial, com componentes intestinais, neurológicos e psicossociais. 

Na prática, você vai continuar tendo que explicar para os pais sobre o "bebê com choro excessivo", mas sabendo (e orientando) que esse diagnóstico tem muuuuuuito mais profundidade. E isso muda o que você oferece como conduta, né?

Ah, e o mesmo raciocínio vale para a criança mais velha, ta? Eu sei o quanto é difícil manejar dor abdominal crônica sem causa orgânica, e o Roma V também entende isso. 

Por isso, pela primeira vez, temos também o diagnóstico de “Síndrome de Dor Abdominal Centralizada” (CAPS). 

Sabe aquela criança com dor contínua e severa que não responde a nenhum tratamento convencional, que não tem nada nos exames, e que os pais já não sabem mais o que fazer?  

Pois o Roma V diz: isso tem nome, critério e manejo multidisciplinar. Você não estava errada. O diagnóstico é que ainda não tinha chegado heheh

O que o artigo mostrou

Publicado em pré-proof no Gastroenterology e aceito em 13 de janeiro de 2026, o artigo é um dos três documentos fundadores dos Critérios de Roma V pediátricos. O comitê formado por especialistas internacionais em gastroenterologia pediátrica revisou toda a literatura disponível para atualizar os critérios diagnósticos dos distúrbios do trato gastrointestinal inferior e das vias biliares em crianças e adolescentes.

A grande virada conceitual: o termo "distúrbios funcionais gastrointestinais" foi oficialmente substituído por DGBI (Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro). O motivo é técnico e clínico ao mesmo tempo: "funcional" sugere ausência de doença orgânica, o que minava a credibilidade do diagnóstico perante as famílias. DGBI, por sua vez, nomeia o mecanismo real: uma disfunção na via bidirecional entre cérebro e intestino. É a mesma condição, com um nome que faz jus à sua complexidade.

E os números, ahhh.. esses impressionam:

  • SII afeta entre 1,9% e 10,4% das crianças em idade escolar em todo o mundo (meta-análise global: média de 3%)

  • A "cólica do bebê", agora Síndrome de Distress do Lactente (SDL) — tem prevalência de 1,9% a 19,2%, com pico entre 1 e 2 meses de vida

  • Lactobacillus reuteri reduz o tempo de choro em bebês com SDL em 64,6 minutos por dia, a evidência mais sólida de tratamento até agora

  • CAPS, Síndrome de Dor Biliar, Proctalgia Fugax e Bloating Funcional chegam à pediatria pela primeira vez nos critérios de Roma V

Doído, né?

Agora, uma por uma, as principais mudanças:

"Cólica" → Síndrome de Distress do Lactente (SDL)

Essa é a mudança mais cotidiana para o pediatra de consultório. O Roma V aposentou o termo "cólica infantil" porque a palavra implica uma origem no cólon, o que nunca foi comprovado. O novo nome reflete o que se sabe hoje: choro excessivo e recorrente em lactentes é multifatorial, com componentes gastrointestinais, neurológicos e psicossociais.

O critério também foi expandido: no Roma IV, o bebê precisava resolver antes dos 5 meses. No Roma V, esse limite de idade foi removido porque alguns bebês continuam com choro excessivo depois dos 5 meses, e isso não tornava o diagnóstico inválido, apenas invisível.

Sobre o mecanismo: há evidência de que bebês com SDL têm microbioma diferente, mais Proteobacteria, menos Bifidobacterium e Lactobacillus, com menor diversidade bacteriana. Antibiótico na primeira semana de vida está associado a maior risco de SDL, provavelmente por disbiose precoce. E ansiedade materna precede o quadro: é um fator de risco. A depressão materna, por sua vez, tende a ser consequência, entrando num ciclo vicioso com o choro do bebê.

"E o que eu ofereço pra essa família?" Valide o sofrimento dos pais. Explique a natureza autolimitada. L. reuteri é o tratamento com melhor evidência, 64,6 minutos a menos de choro por dia. Simethicona, lactase, sucrose, IPP e quiropraxia? Evidência muito fraca. Podem ser tentados, mas sem prometer.

CAPS — Síndrome de Dor Abdominal Centralizada (NOVO na pediatria)

Esse diagnóstico existia nos adultos. No Roma V chega à pediatria. É para a criança com dor abdominal contínua ou quase contínua, grave o suficiente para interferir com o funcionamento diário, e que não responde a tratamentos convencionais. Não há um padrão temporal de crises, a dor é constante. Está associada à sensibilização central, onde o sistema nervoso central amplifica os sinais de dor. O manejo é multidisciplinar: psicologia, neurologia, fisioterapia e, quando necessário, medicação para modulação central da dor.

Síndrome de Dor Biliar Pediátrica (NOVO na pediatria)

Pela primeira vez, os critérios de Roma incluem dor biliar na pediatria. É a dor no quadrante superior direito (com ou sem epigástrio), de início agudo, que dura no mínimo 30 minutos e pode se estender por horas, episódica, intensa o suficiente para motivar uma avaliação médica de urgência. O Roma V traz uma mensagem fundamental aqui: a ejection fraction da vesícula biliar NÃO é recomendada para o diagnóstico. E a cirurgia só deve ser considerada quando tratamentos não cirúrgicos foram adequadamente tentados e falharam. Isso porque a discinesia biliar pode resolver espontaneamente, e a colecistectomia tem taxas de sucesso que variam de 34% a 100%, o que diz muito sobre a inconsistência diagnóstica atual.

Proctalgia Fugax (NOVO na pediatria)

Dor anal episódica, súbita, intensa, que dura segundos a minutos e some sozinha. Rara em crianças, mas existe, e agora tem critério pediátrico. Não é crise. É dor retal de origem neuromuscular, geralmente autolimitada. Saber o nome evita investigação desnecessária e, mais importante: valida o sofrimento da criança.

Bloating Funcional Abdominal (NOVO na pediatria)

Novo grupo diagnóstico: distensão e/ou sensação de inchaço abdominal recorrente, sem um diagnóstico GI mais específico que explique. Sim, "minha barriga fica inchada" agora tem critério pediátrico. Isso é especialmente relevante em adolescentes.

Constipação Funcional — critérios refinados

O critério de duração foi reduzido de 2 meses para 1 mês. O critério de idade foi removido, qualquer idade pode ser diagnosticada com os mesmos critérios. E "esforço para defecar" foi adicionado como critério. Tudo isso reflete a prática: 1 mês já é tempo suficiente para o impacto clínico e para iniciar tratamento.

Diarreia Funcional — agora até os 18 anos

No Roma IV, a diarreia funcional era diagnóstico de pré-escolares. No Roma V, o critério de idade superior foi removido, qualquer criança ou adolescente pode ter o diagnóstico. Isso resolve um problema clínico real: o adolescente com fezes amolecidas crônicas, sem dor, sem sangue, sem causa orgânica... que antes ficava sem diagnóstico. Agora tem um.

E o mecanismo de tudo isso?

"Por que o intestino e o cérebro se comunicam tão mal nessas crianças?"

A resposta está no eixo cérebro-intestino — um sistema bidirecional que inclui o nervo vago, o sistema nervoso entérico (o "segundo cérebro", com mais de 500 milhões de neurônios), o microbioma intestinal e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Qualquer estresse, físico, emocional ou infeccioso, pode perturbar essa comunicação. Infecções precoces, antibióticos, experiências adversas na infância, ansiedade parental: todos têm evidência de associação com o desenvolvimento de DGBI. A dor nessas condições é real: gerada por um sistema nervoso que aprendeu a amplificar sinais que outros sistemas ignorariam.

O que muda pra você, pediatra de consultório?

Primeiro: a maioria das suas condutas não muda. PEG continua sendo primeira linha para constipação. A abordagem da SII continua sendo biopsicossocial. A orientação para famílias de bebês com SDL continua sendo validar, tranquilizar e apoiar.

O que esse artigo faz é empoderar sua conversa com as famílias e preencher lacunas diagnósticas reais.

Na prática, te recomendo o seguinte:

  • Troque "distúrbio funcional" por "Distúrbio da Interação Intestino-Cérebro" quando quiser explicar o mecanismo. "Esse é um distúrbio de como o intestino e o cérebro se comunicam, a dor é real, gerada por um eixo que está hipersensível." É mais fácil de acolher (e mais preciso).

  • Para o bebê que chora muito: SDL tem critério agora. Sem limite de 5 meses. Valide os pais, explique o mecanismo, ofereça L. reuteri com expectativa real (reduz, não zera o choro). Investigue red flags: choro de alta frequência, início após 4 meses, vômitos, febre, perda de peso.

  • Para a criança com dor contínua e intratável: considere CAPS. Encaminhe para equipe multidisciplinar. Não desista com "não tem nada". Tem. E o nome agora é CAPS.

  • Para a criança com dor no quadrante superior direito: os critérios de Síndrome de Dor Biliar requerem dor episódica, aguda, com duração ≥30 minutos, severa o suficiente para buscar avaliação. Ejection fraction vesicular NÃO é recomendada para diagnóstico (Roma V). Cirurgia só após falha de tratamentos não cirúrgicos, e família orientada que a colecistectomia pode não resolver os sintomas.

  • Para o adolescente com diarreia crônica sem dor: Diarreia Funcional agora existe até os 18 anos. Antes de fazer uma investigação extensa, verifique se os critérios de Roma V se encaixam.

E quando a família perguntar "mas isso é sério?"

"É real. Não é invenção. É um distúrbio de como o intestino e o cérebro se comunicam. E tem um comitê internacional de especialistas que passou anos revisando a evidência pra nos dar critérios melhores para cuidar do seu filho. A gente tá no caminho certo."

Isso não é false hope. É o diagnóstico certo. E agora você tem a ciência de 2026 para embasar.

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

✅ Critérios de Roma V pediátricos - publicação histórica no Gastroenterology, aceito jan. 2026 → revisa 11 condições do TGI inferior e vias biliares em crianças e adolescentes

✅ "Distúrbios funcionais GI" → DGBI (Distúrbios da Interação Intestino-Cérebro) - mesmo mecanismo, nome que reflete a fisiopatologia real

✅ "Cólica infantil" → Síndrome de Distress do Lactente (SDL): critério de 5 meses removido, microbioma envolvido, L. reuteri é o tratamento com melhor evidência (−64,6 min de choro/dia)

✅ CAPS (Síndrome de Dor Abdominal Centralizada): pela primeira vez na pediatria - dor contínua, intratável, sensibilização central, manejo multidisciplinar

✅ Novos diagnósticos pediátricos: Síndrome de Dor Biliar (cuidado com colecistectomia precoce), Proctalgia Fugax, Bloating Funcional

✅ Constipação Funcional: critério reduzido para 1 mês, sem limite de idade, straining adicionado

✅ Diarreia Funcional: agora vai até 18 anos - o adolescente com diarreia crônica sem dor finalmente tem diagnóstico

Essa é daquelas edições que a gente vai lembrar quando estiver sentada na frente da família pela quinta vez com a mesma criança com dor de barriga - e não saber o que mais dizer…

Não porque os diagnósticos são novos. A dor abdominal funcional existe há décadas. A cólica existe desde que o mundo é mundo.

Mas porque agora eles têm nome melhor, critério atualizado e uma narrativa que faz jus ao que essas famílias vivem. E isso é diferente.

A próxima vez que uma mãe chegar com o bebê berrando e perguntar "é cólica, doutora?" - você vai saber exatamente o que responder. E vai ser uma resposta com mais profundidade, mais acolhimento e mais ciência do que "é, provavelmente é cólica."

Compartilha essa news com o gastro pediátrico do seu hospital, com a pediatra colega que tá batendo cabeça com constipação refratária, com quem cuida de bebê que não para de chorar. Com carinho, ok? rs

E ó, nos vemos na semana que vem, hein? Não foge não…

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC 💛