40.000 crianças que não vão precisar de EpiPen

O estudo que provou que a prevenção funciona

EDIÇÃO #28

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

O amendoim perdeu o trono… 🥜👑

Lembra quando a gente aprendia na faculdade que amendoim era O grande vilão das alergias alimentares na infância? Que tinha que introduzir tarde, com medo, de preferência num hospital com UTI do lado? (ok, exagerei, mas você entendeu rs)

Pois bem. Um estudo publicado na Pediatrics em outubro de 2025 trouxe uma notícia que eu PRECISAVA compartilhar com vocês:

A alergia a amendoim em crianças menores de 3 anos CAIU 43% na última década.

E mais: o amendoim PERDEU o posto de alérgeno mais comum na infância. Agora quem ocupa esse lugar é o ovo.

Isso mesmo. A mudança nos guidelines de introdução alimentar precoce FUNCIONOU. E funcionou de verdade. Bora ver isso no detalhe?

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: A queda histórica nas alergias alimentares e o que mudou nas recomendações de introdução de alérgenos

Fonte: Estudo do Children's Hospital of Philadelphia publicado na Pediatrics (AAP) — Outubro 2025 [Disponível aqui]

  • Por que você deveria se importar?

  • Você acha que sabe, mas…

  • O que o estudo mostrou

  • Como orientar na prática

  • Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

Por que você deveria se importar?

Porque esse é um daqueles raros momentos em que a gente consegue VER a ciência mudando a realidade clínica em tempo real.

Em 2015, o estudo LEAP (Learning Early About Peanut Allergy) virou o jogo: mostrou que introduzir amendoim CEDO em bebês de alto risco (eczema grave e/ou alergia a ovo) reduzia o risco de alergia em 81%. Isso mesmo, OITENTA e UM porcento.

Depois vieram os guidelines de 2015, 2017 e 2021, cada vez mais enfáticos: introduza cedo, não espere.

A linha do tempo dos guidelines:

  • 2015: Publicação do LEAP + primeiras recomendações para introdução precoce em crianças de ALTO risco

  • 2017: Addendum da AAP expandindo a recomendação para crianças de risco moderado e reforçando a introdução após os 6 meses para alto risco

  • 2021: Guidelines atualizados recomendando introdução de alérgenos (amendoim, ovo e outros) para TODAS as crianças a partir de 6 meses, independente do risco

E agora, 10 anos depois do estudo LEAP, o estudo do CHOP (Children's Hospital of Philadelphia) analisou dados de prontuários eletrônicos de milhares de crianças e mostrou que:

  • 43% de REDUÇÃO na alergia a amendoim em crianças < 3 anos

  • 36% de redução em TODAS as alergias alimentares (leite, ovo, oleaginosas...)

  • Estima-se que pelo menos 40.000 crianças foram poupadas de desenvolver alergia a amendoim na última década

Os autores do comentário que acompanha o estudo disseram algo lindo: "Se confirmado, isso representa um avanço significativo de saúde pública — afirmando que a pesquisa clínica, quando aliada a guidelines claros e disseminação comprometida, pode de fato mudar a trajetória da alergia alimentar na infância."

Em outras palavras: a ciência funciona (novas.. rs). E você, pediatra, faz parte dessa mudança.

Aiiiii eu não canso de dizer: ô especialidade LINDA, meu Deus!

Você acha que sabe, mas…

Muita gente ainda acredita que o amendoim é o alérgeno mais comum na infância, mas isso mudou…

Com a queda de 43% na prevalência, quem ocupa esse posto agora é ele, o OVO!

Isso é consequência direta da introdução precoce do amendoim, que ainda não aconteceu na mesma intensidade com outros alérgenos.

Outra crença comum é que crianças de alto risco não podem introduzir amendoim em casa. E isso é verdade apenas em partes...

As com eczema grave e/ou alergia a ovo confirmada realmente devem passar por avaliação com alergista antes, sim, com possível teste cutâneo ou IgE específica, e a primeira exposição pode até ser feita no consultório...

Mas crianças de risco baixo ou moderado podem SIM introduzir em casa, com segurança, seguindo as orientações corretas.

Ah.. tem também quem diga que o estudo LEAP foi feito só com crianças de alto risco e, portanto, não se aplica a todo mundo.

De novo: parcialmente verdade. Mas os guidelines de 2021 já expandiram a recomendação: a introdução de amendoim, ovo e outros alérgenos principais agora é indicada para TODAS as crianças a partir de 6 meses, sem necessidade de aguardar ou fazer testes prévios naquelas sem fatores de risco.

Ah, só pra ninguém esquecer: NUNCA oferecer amendoim inteiro ou em pedaços até pelo menos 4 anos!

O que o estudo mostrou

Esse estudo foi publicado na Pediatrics em outubro de 2025 por pesquisadores do Children's Hospital of Philadelphia (CHOP), e é um dos primeiros a mostrar, com dados de mundo real, que os guidelines de introdução precoce de alérgenos estão de fato funcionando.

Como foi feito:

Os pesquisadores analisaram dados de prontuários eletrônicos do banco colaborativo da AAP, que reúne informações de milhares de crianças atendidas em serviços pediátricos nos Estados Unidos.

Eles compararam a incidência de alergia alimentar IgE-mediada (ou seja, alergia "de verdade", confirmada) em crianças nascidas ANTES dos guidelines de 2015 com aquelas nascidas DEPOIS (especialmente após o reforço de 2017).

O diagnóstico de alergia alimentar foi baseado em critérios clínicos padronizados, não apenas em relato dos pais ou suspeita. E isso dá ainda mais peso aos achados.

Os números que importam:

A incidência cumulativa de alergia a amendoim em crianças menores de 3 anos caiu de 0,79% (antes de 2015) para 0,45% (após 2017). Parece pouco?!

Isso representa uma redução de 43%. Em termos absolutos, os pesquisadores estimam que pelo menos 40.000 crianças foram poupadas de desenvolver alergia a amendoim na última década só nos EUA…

E não foi só o amendoim: a redução em QUALQUER alergia alimentar (incluindo leite, ovo, oleaginosas) foi de 36%. Ou seja, a mudança de paradigma na introdução alimentar está beneficiando a prevenção de alergias como um todo.

De onde veio essa mudança:

Tudo começou com o estudo LEAP (Learning Early About Peanut Allergy), publicado em 2015 no New England Journal of Medicine.

Esse ensaio clínico randomizado acompanhou bebês de 4-11 meses considerados de alto risco (eczema grave e/ou alergia a ovo) e comparou dois grupos: um que introduziu amendoim precocemente e outro que evitou até os 5 anos.

O resultado foi impressionante: o grupo que introduziu cedo teve 81% menos alergia a amendoim aos 5 anos.

E o mais interessante: esse efeito protetor se manteve até a adolescência, mesmo quando as crianças pararam de comer amendoim regularmente por um tempo 😱😱😱

Como orientar na prática

A abordagem muda conforme o nível de risco da criança. Aqui está o passo a passo:

🟢 Baixo risco (sem eczema, sem alergia a ovo)

  • Quando: a partir de 6 meses, junto com a introdução alimentar

  • Onde: em casa, sem necessidade de teste prévio

  • Como: pasta de amendoim diluída, ou misturada com purê de frutas

🟡 Risco moderado (eczema leve a moderado)

  • Quando: também a partir de 6 meses

  • Onde: pode ser em casa ou no consultório, conforme preferência da família e do pediatra

  • Como: mesma forma

  • Observação: não precisa de teste prévio obrigatório, mas avalie caso a caso

🔴 Alto risco (eczema grave E/OU alergia a ovo confirmada)

  • Quando: o mais cedo possível após início de sólidos

  • Onde: avaliação com alergista ANTES, possível teste cutâneo ou IgE específica

  • Primeira exposição: pode ser no consultório do alergista

  • Depois: manter exposição regular em casa (3x por semana)

⚠️ Alertas importantes para TODOS:

  • NUNCA oferecer amendoim inteiro ou em pedaços (risco de engasgo até ~4 anos)

  • A exposição precisa ser regular (pelo menos 3x/semana) para manter o efeito protetor

  • Se a criança já teve reação prévia a amendoim → alergista PRA ONTEM

  • Os mesmos princípios se aplicam a outros alérgenos (ovo, leite, oleaginosas)

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

✅ Introdução precoce protege. Essa é a mensagem central. Quanto mais cedo a criança for exposta aos alérgenos (a partir de 6 meses), menor a chance de desenvolver alergia.

✅ Nem toda criança precisa de alergista antes de introduzir amendoim. Só encaminhe se: eczema GRAVE, alergia a ovo já confirmada, ou reação prévia a amendoim. Fora isso, pode orientar introdução em casa.

✅ A forma de oferecer importa. Pasta de amendoim pura pode causar engasgo. Sempre diluir ou misturar com purê, papinha ou iogurte (para os maiores de 12 meses). Amendoim inteiro só após 4 anos.

✅ Não basta introduzir uma vez. A exposição precisa ser regular (pelo menos 3x por semana) para manter o efeito protetor. Oriente os pais a manterem o alérgeno na rotina alimentar.

✅ O ovo agora é o alérgeno #1. Com a queda do amendoim, o ovo assumiu o posto. Vale reforçar com os pais que a introdução precoce se aplica a TODOS os alérgenos principais, não só ao amendoim.

✅ A pergunta que você precisa fazer na sua prática é: "Já introduziu amendoim e ovo? Com que frequência oferece?" → isso te dá o panorama pra orientar ou corrigir a rota.

Gente, esse estudo me emocionou. Sério.

Porque a gente vive num mundo onde parece que nada funciona, que os guidelines mudam toda hora e ninguém segue mesmo, que a ciência é lenta demais pra fazer diferença...

E aí vem um estudo mostrando que, em 10 anos, a gente conseguiu REDUZIR EM 43% uma das alergias mais temidas da infância...

Que pelo menos 40.000 crianças não vão precisar viver com EpiPen na mochila, não vão ter que ler rótulo de tudo, não vão ter medo de festa de aniversário. FALA SÉRIO!

E isso aconteceu porque pesquisadores fizeram ciência de qualidade, porque sociedades médicas traduziram isso em guidelines claros, e porque pediatras como VOCÊ levaram essa informação pros pais no consultório.

Então da próxima vez que você orientar introdução alimentar e falar "pode dar amendoim cedo, é seguro e protege", lembra: você está fazendo parte de uma mudança real!!

E isso é lindo DEMAIS!

Enfim, passado o momento emoção, não esquece de compartilhar a nossa news com quem precisa ler, e semana que vem nos vemos aqui, nesse mesmo batcanal!

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC 💛