- The Peds Journal
- Posts
- #37: A bolacha que a mãe acha inofensiva
#37: A bolacha que a mãe acha inofensiva
Ultraprocessados aos 3 anos, ansiedade e obesidade aos 5
EDIÇÃO #37
The Peds Journal
A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!
Caloria vazia demais também faz mal…
Dois estudos com mais de 2.000 crianças canadenses mostraram: ultraprocessados já são 45% das calorias diárias de crianças de 3 anos…
E calma que piora: quanto mais ultraprocessados, maior o risco de obesidade, sim, ms também piores os desfechos comportamentais (ansiedade, agressividade, hiperatividade).
A bolacha que a mãe acha inofensiva pode estar destruindo mais do que parece. E a gente vai falar disso hoje.
🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje
Tema: Consumo de alimentos ultraprocessados na primeira infância e risco de obesidade e desfechos comportamentais
Fonte: (1) Chen ZH et al. Ultraprocessed Food Consumption and Obesity Development in Canadian Children. JAMA Network Open, jan. 2025 | (2) Kavanagh ME et al. Ultraprocessed Food Consumption and Behavioral Outcomes in Canadian Children. JAMA Network Open, mar. 2026.
Nessa edição você vai aprender:
O que são alimentos ultraprocessados (UPF) e o que a classificação NOVA tem a ver com isso
O que aconteceu com mais de 2.000 crianças canadenses que consumiram mais UPF aos 3 anos
Os números: obesidade, gordura corporal (e o desfecho que surpreendeu os pesquisadores)
Como usar esse dado nas consultas de puericultura sem parecer que está julgando a família
Por que você deveria se importar?
Porque se você atende pelo menos uma criança no dia (independente de onde seja), sabe que orientação alimentar é uma das partes mais importantes da consulta, e onde a família menos ouve o que quer ouvir.
"Come bem" é uma frase que todo pai e mãe querem poder dizer. E muitos dizem. Só que "come bem" muitas vezes inclui coisas que a indústria alimentar passou décadas tornando convenientes, baratas, palatáveis e absolutamente onipresentes…
Tão onipresentes e “feitas pra crianças” (é só colocar o personagem da Disney na embalagem que pronto, é pra criança) que todo mundo normalizou o consumo..
E antes de seguir, vamos dar “nomes aos bois" e falar da classificação NOVA. Ela foi desenvolvida pelo epidemiologista brasileiro Carlos Monteiro, lá na USP (siiim é do Brasiiiiil) e divide os alimentos em quatro grupos, do menos pro mais processado.
O Grupo 4 é o dos ultraprocessados, que são formulações industriais feitas com ingredientes que você nunca usaria numa cozinha caseira: emulsificantes, estabilizantes, corantes, aromatizantes, adoçantes...
São os alimentos com lista de ingredientes extensa, embalagem colorida com promessa de saúde e validade de meeeeses…
O iogurte de morango da tampa colorida. A bolacha recheada da merenda da escola. O suco de caixinha "100% natural" das princesas. O cereal matinal com personagem do filme da moda.
Todos ultraprocessados. Todos na mesa de boa parte das nossas famílias.
Mas o quanto isso está contribuindo pra saúde dessas crianças a longo prazo? Pesquisadores do CHILD Cohort, um dos maiores coortes prospectivos de crianças do Canadá, acompanharam mais de 2.000 crianças, avaliaram a dieta delas aos 3 anos e mediram IMC, gordura corporal e desfechos comportamentais aos 5 anos.
E o resultado foi (bem) incômodo.
Você acha que sabe, mas…
“Pouca quantidade” de ultraprocessado, mesmo que a criança “coma de tudo” também faz mal. Principalmente quando essa “pouca quantidade” na verdade aconteça várias vezes no dia.
No estudo em questão, por exemplo, os UPFs já representavam em média 45,5% das calorias diárias, e pasme: isso em crianças de TRÊS anos.
Não é uma fatia pequena. É quase METADE da dieta da criança. E a associação com obesidade nos meninos foi para cada incremento de 10% a mais na quantidade de UPF.
Ou seja, meus amigos: cada porção extra importa.. não tem limiar documentado onde o risco “some”.
"Ahh Gabi, mas isso é la no Canadá, né? Nada a ver com o Brasil..."
Pois agora.. os estudos foram feitos no Canadá sim, e claro, nós não temos exatamente o mesmo coorte aqui. Mas dados brasileiros mostram percentuais ainda maiores de consumo de UPF em crianças pequenas, e a indústria alimentar ultraprocessada no Brasil é das maiores e mais agressivas do mundo.
Ou seja: o mecanismo biológico não muda de país. O iogurtinho de morango é tão ultraprocessado no Canadá quanto no Brasil. E faz mal pras crianças de lá e daqui, quando consumido em excesso.
Mas como orientar a alimentação sem que os pais se sintam culpados ou sem possibilidade de mudar, então?
Pois o dado mais esperançoso do estudo é exatamente esse: a análise de substituição.
Quando os pesquisadores trocaram matematicamente uma porção de UPF por alimentos minimamente processados, os desfechos comportamentais já melhoraram.
Isso significa que, como tudo na vida, não precisa ser tudo ou nada. Trocar uma coisa de cada vez já importa.. e esse é o argumento que vamos reforçar nas consultas!
O que o artigo mostrou
Primeiro, foram dois estudos do mesmo coorte, publicados no JAMA Network Open. O primeiro em janeiro de 2025, sobre obesidade. O segundo em março de 2026 (fresquíssimoooo) sobre comportamento.
Mesma coorte canadense CHILD, mesma lógica: dieta avaliada aos 3 anos usando a classificação NOVA, desfechos medidos aos 5 anos.
E o que esses pesquisadores encontraram?
Primeiro, que os UPFs representaram em média 45,5% das calorias diárias das crianças aos 3 anos, sendo 46% nos meninos e 44% nas meninas.
Depois, que meninos com maior consumo de UPF tiveram 19% mais chance de sobrepeso ou obesidade para cada aumento de 10% na proporção de UPF na dieta. Ou seja, quanto mais, pior (cientificamente comprovado rs).
Também viram que quanto mais UPF na dieta, maior IMC e maior a quantidade de tecido adiposo nas dobras tricipital e subescapular (alô? Resistência insulínica?!)
E aí… a grande bomba. Esse estudo mais recente, de Março de 2026, encontrou uma correlação positiva de que quanto mais UPF aos 3 anos, maiores os índices de ansiedade, medos, agressividade e hiperatividade aos 5 anos de idade.
E olha a mágica: que trocar uma porção de UPF por alimentos minimamente processados melhorou esses desfechos comportamentais…
Bizarro, né? A gente já esperava o efeito no peso. Até aí, nada de novo sob o sol. Mas a associação com ansiedade, agressividade e hiperatividade dois anos depois da dieta avaliada é o que torna esses estudos diferentes de tudo que a gente já tinha visto antes.
E aparentemente, o mecanismo pelo qual isso ocorre não é único. Provavelmente envolve a densidade calórica alta com baixa saciedade, a pobre qualidade nutricional (menos fibra, menos micronutrientes, mais açúcar e sódio), e possíveis efeitos no microbioma e na inflamação sistêmica.
Para os desfechos comportamentais, a hipótese é de que a qualidade nutricional afeta o neurodesenvolvimento via micronutrientes e via microbioma.. mas essa parte da pesquisa ainda está avançando e ainda não podemos afirmar nada com certeza.
Ta, e na prática?!
O que muda pra você, pediatra de consultório?
Primeiramente, muda que a orientação alimentar precisa ir além do "come fruta e verdura?", né?
A grande maioria das famílias que responde "come bem" não está mentindo. Ela simplesmente não sabe que o iogurtinho, a bolacha, o suco de caixinha e o cereal têm um nome técnico, ultraprocessados, e que, somados, podem corresponder à metade do que a criança come no dia.
Na consulta, é legal perguntar com exemplos concretos: "Ele come bolacha? Suco de caixinha? Iogurte industrializado? Cereal de caixa?"
Usar a classificação NOVA simplificada - de que "ultraprocessado é tudo que tem lista de ingredientes que você não reconhece, embalagem colorida e validade prolongada - também ajuda as famílias a entenderem melhor o conceito e evitar esse tipo de alimento.
Também é importante focarmos na substituição, não na proibição.. trocar o suco de caixinha por uma fruta in natura picadinha já é uma baita vitória, por exemplo. As pequenas trocas têm impacto cumulativo real!
E se (ou quando) alguém da família falar "mas na minha época a gente comia isso e não tinha nada", você explica:
"Na sua época, 45% das calorias das crianças não vinham de ultraprocessados. Isso mudou bastante nos últimos 30 anos.. e só agora a ciência tá conseguindo medir o preço disso."
Cuidar da alimentação da criança é cuidar do adulto que um dia ela será. E agora você tem mais dois estudos recentes pra te ajudar nessa batalha.
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
✅ Dois estudos do CHILD Cohort (Canadá), 2.000+ crianças, dieta avaliada aos 3 anos e desfechos aos 5 anos
✅ Ultraprocessados (UPFs) corresponderam a 45,5% das calorias diárias de crianças de 3 anos
✅ Maior consumo de UPF = 19% mais risco de sobrepeso/obesidade (meninos) e mais gordura corporal
✅ O que mais surpreendeu: consumo de UPF aos 3 anos representou mais ansiedade, agressividade e hiperatividade aos 5 anos
✅ Boa notícia: substituir UPF por minimamente processados pode melhorar os desfechos comportamentais
E caso ainda não tenha ficado claro: essa edição não é sobre excluir a bolacha de vez da vida da criança. Mesmo porque, é improvável que alguém aqui consiga fazer isso.
Mas nomear, dar um nome técnico pra aquela lista de alimentos que a família chama de "comida normal", mostrar que a ciência está olhando pra esse hábito com cada vez mais atenção e que os resultados estão chegando (e não são bons) pode fazer toda a diferença nos hábitos dessa família como um todo.
E se essa família, numa próxima ida ao mercado, pensar duas vezes antes de colocar o cereal de personagem no carrinho, você já ta vencendo a batalha (e o seu paciente também!)
E por falar em vencer, hoje você venceu a desatualização rs mas toda vitória é mais legal quando compartilhada, então já manda logo essa edição do The Peds pro seu colega pediatra que precisa ler sobre esses impactos também!
Ah, e nos vemos na semana que vem, nesse meeeesmo batlocal!
Beijinhos científicos,
Gabi do PDC 💛