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#18: Mais atual do que você imagina
Sífilis não é doença "do passado"
EDIÇÃO #18
The Peds Journal
A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!
Cazuza acertou ao dizer…
O tempo não para. Será que você tem usado o seu da melhor maneira possível? Será que tem dedicado tempo o suficiente para as pessoas que importam? Cazuza acertou mesmo. Não para, não volta e não tem dó de ninguém.
Se você não sabe quem é Cazuza, tudo bem. A mensagem ainda assim é válida pra você - mas certamente seu colágeno ta mais em dia que o meu rs Ela ta filósofa hoje, deixe ela com a filosofia dela…
🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje
Tema: Sífilis Congênita
Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria – Departamento Científico de Neonatologia. Setembro de 2025. [🔗Acesso ao documento completo aqui]
Por que você deveria se importar?
Você acha que sabe, mas…
O diagnóstico materno e a classificação do bebê
Tratamento e seguimento do RN exposto
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
Por que você deveria se importar?
Mesmo sendo considerada por muitos uma doença “antiga”, tendo protocolos bem definidos e tratamento conhecido há décadas, a sífilis segue vivíssima entre nós.. e a sífilis congênita continua, infelizmente, crescendo na mesma proporção.
Segundo o documento da SBP de setembro desse ano, a taxa de detecção de sífilis em gestantes chegou a 32,4/1.000 nascidos vivos, com mais de 26 mil casos de sífilis congênita e cerca de 200 óbitos neonatais nas últimas décadas.
A doença é considerada um evento sentinela, ou seja, um indicador direto da qualidade do pré-natal e da vigilância em saúde.
E mais do que um problema infeccioso, é um alerta de falhas em rede: rastreio tardio, desabastecimento de penicilina, tratamento inadequado e, claro, o velho conhecido.. a falta de testagem dos parceiros.
E é aí que entra o pediatra: não como quem espera a “consequência”, mas como parte fundamental dessa rede de prevenção.
Reconhecer sinais precoces, entender os fluxos atualizados e reforçar o rastreio durante o acompanhamento infantil são atitudes que fazem diferença real. E claro, evitam que um agravo 100% prevenível continue escrevendo estatísticas tão tristes na pediatria brasileira…
Você acha que sabe, mas…
Repete com a tia: sífilis congênita NÃO É uma doença “do passado” e nem restrita a contextos de vulnerabilidade social.
Sífilis não tem “cara”, e a transmissão vertical pode ocorrer em qualquer fase da gestação e chegar a 80% de risco, dependendo do estágio da infecção materna.
E, pela milésima vez, ao contrário do que muita gente ainda pensa, a ausência de sinais clínicos no recém-nascido não exclui o diagnóstico.
Até 90% dos bebês nascem assintomáticos, e o diagnóstico depende de correlação clínica, epidemiológica e sorológica.
E é justamente por isso que a SBP revisitou o tema em 2025: pra reforçar que, apesar de todo o conhecimento acumulado, as falhas continuam acontecendo.. e elas estão no rastreio, no diagnóstico e, muitas vezes, na condução pós-parto.
O novo guia traz fluxos um pouco mais claros, critérios atualizados e uma linguagem prática, do tipo que ajuda quem está lá na ponta, enfrentando o desafio diário de diagnosticar precocemente e, principalmente, prevenir novos casos.
Então bora ver isso aí de perto!
O diagnóstico materno e a classificação do bebê
A nova diretriz da SBP sobre sífilis congênita não trouxe grandes revoluções, mas sim ajustes práticos que impactam o dia a dia do pediatra, especialmente no atendimento ao recém-nascido exposto e no seguimento dos casos confirmados.
O documento reforça a importância da testagem em três momentos fundamentais da gestação: no início do pré-natal, no terceiro trimestre e no parto.
Outro ponto crucial é a definição atualizada de tratamento materno adequado:

Mas não basta ter tido tratamento adequado, é preciso também que esse tratado tenha sido eficaz, e pra isso, olhamos para alguns outros critérios:

*Avaliação quanto ao risco de reinfecção = tratamento do parceiro sexual da gestante
O documento mantém a classificação dos RN em dois grandes grupos principais, baseando-se na situação materna, no tratamento e nos resultados laboratoriais do binômio mãe-bebê:
Recém-nascido com sífilis congênita
Inclui todo RN filho de mãe não tratada ou tratada inadequadamente, ou cujo tratamento foi iniciado menos de 30 dias antes do parto.
Também é incluído aquele com exame físico alterado compatível com sífilis congênita ou título não treponêmico maior que o materno (em pelo menos duas diluições)
Esse grupo deve receber tratamento completo com penicilina por 10 dias.
Recém-nascido exposto à sífilis
Refere-se ao bebê filho de mãe tratada adequadamente (com penicilina benzatina, conforme fase da doença e início ≥30 dias antes do parto, com o parceiro tratado e títulos em queda).
Nesses casos, não há necessidade de tratamento imediato, mas deve ser realizado acompanhamento clínico e sorológico do bebê.
Tratamento e seguimento do RN
O documento da SBP (2025) deixa bem claro: o tratamento do recém-nascido deve ser definido a partir da situação materna, da avaliação clínica do bebê e dos resultados sorológicos.
Logo, as abordagens possíveis vão dividir os bebês em dois grupos:
1) Mãe adequadamente tratada:
Solicitar VDRL do RN:
Se Não Reagente, menor, igual ou 1 vez maior que o materno → acompanhar.
Se 2 vezes (ou mais) maior que o materno: completar a investigação e tratar (a depender dos exames do bebê)
2) Mãe inadequadamente tratada:
Investigação completa
Se exames normais → Penicilina Benzatina em dose única e acompanhar
Se qualquer exame alterado → internar e tratar por 10 dias
Sifilis Congênita Comprovada: investigação completa, tratamento por 10 dias e seguimento*
Se apresentar VDRL não reagente em duas avaliações seguidas, não será necessário repetir o VDRL.
Se o VDRL 2 vezes maior que o materno = completar a investigação e tratar.
*Seguimento: VDRL com 1, 3, 6, 12 e 18 meses (o teste treponêmico entre 15 e 18 meses não é mais obrigatório).
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
✅ Sífilis congênita ainda é um problema atual, e a responsabilidade do pediatra vai muito além da UTI ou do berçário (começa na prevenção e termina no seguimento)
✅ Testar em três momentos da gestação (início do pré-natal, terceiro trimestre e parto) continua sendo regra de ouro, e rastrear o parceiro é parte do tratamento.
✅ Mãe tratada inadequadamente = bebê tratado, sempre.
✅ Mãe tratada adequadamente = bebê acompanhado, com sorologias seriadas até 18 meses.
✅ Nada de inventar antibiótico alternativo: penicilina segue sendo a única opção eficaz e segura.
✅ RN assintomático não é RN livre de sífilis. Até 90% nascem sem sinais clínicos, então o olhar atento continua sendo o melhor “teste rápido” que a gente tem.
E se você chegou até aqui, saiba que agora você ta mais perto de entender que lutar contra a sífilis congênita é sobre rede, cuidado e prevenção.. e que só isso é capaz de transformar a realidade que temos hoje em relação a essa doença!
Ah, e falando em transformação... 👀
O PedJourney tá chegando, e dessa vez não é só um evento: é a maior Black Friday da história do PDC.
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Fica de olho, porque em poucos dias, o que você aprende aqui vai ganhar palco (e desconto rs). Quem avisa, amigo é.
Beijinhos científicos,
Gabi do PDC