EDIÇÃO #43

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Vacina quadrivalente de gripe derivada de cultura celular: eficácia real em lactentes e pré-escolares

Fonte: Poder et al. Eficácia de vacina de influenza quadrivalente derivada de cultura celular em crianças de 6 a 47 meses: ensaio de fase 3. Lancet Child & Adolescent Health, maio de 2026. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12846570/pdf/vaccines-14-00070.pdf

Nessa edição você vai aprender:

  • Por que a gripe em bebê é diferente da gripe que a gente imagina

  • O que é a vacina derivada de cultura celular e por que ela existe

  • Os números reais de eficácia

  • Como melhorar sua taxa de imunização de gripe na faixa de 6 a 47 meses

Por que você deveria se importar?

Porque a vacina de gripe em criança pequena é daqueles assuntos que parecem resolvidos, mas que na prática, na hora da consulta, geram dúvida em absolutamente todas as temporadas.

A família olha para você e pergunta: "Mas Dra.. vale a pena mesmo?" 

E claro, a resposta pra essa pergunta, pra quase todas as vacinas, é a mesma: que vacina sempre vai valer a pena. 

Mas se a gente para pra analisar friamente os números, a eficácia da vacina contra gripe não é de 90%, nem de 70%.. às vezes ela chega em 40%. 

E aí vem o olhar de quem acabou de ouvir "quarenta por cento" e não sabe se deve se preocupar ou não.

E o problema não é a pergunta. O problema é que a maioria dos pediatras responde baseado em intuição, em "ah, é melhor do que nada", mas não consegue contextualizar o número com clareza.

E não que isso esteja errado. Mas esse ensaio de fase 3 serviu para transformar essa resposta. Ela passou de "mais ou menos" para "mais ou menos, e por um motivo biológico muito específico que eu posso te explicar" (e o principal, convencer mais famílias a SIM, aplicarem a vacina nos seus filhos).

Os pesquisadores do consórcio Seqirus avaliaram 5.723 crianças de 6 a 47 meses em 15 países durante duas temporadas consecutivas de gripe. Eles se perguntaram se uma vacina de gripe fabricada em cultura de células (sem o processo de adaptação em ovos de galinha) teria eficácia superior para crianças dessa faixa etária.

E a resposta nós vamos discutir hoje qual foi! (já viram que eu amo deixar vocês curiosos, né?! rs)

Você acha que sabe, mas…

Tem muita gente (incluindo o pediatra) pensando que gripe em criança saudável é autolimitada, que hospitalização por influenza é coisa rara, que "resfriado mais forte" não justifica vacina anual. 

Mas os dados contam outra história, viu?! Influenza é uma das principais causas de hospitalização em menores de 5 anos globalmente, com taxa de complicação desproporcionalmente alta, exatamente na faixa de 6 a 47 meses, que foi o grupo avaliado nesse estudo. 

Então, não.. gripe não é só “resfriadinho de bebê". Influenza pode ser coisa séria.

"Ahhh, mas 40% de eficácia parece pouco pra uma vacina..." 

É porque a comparação que a nossa cabeça faz é com Covid ou sarampo.. e aí, claro, qualquer coisa abaixo de 90% parece decepcionante. 

Mas eficácia da vacina de gripe precisa ser lida diferente. A gente precisa lembrar que o vírus da influenza sofre mutação em toda temporada.. 

Logo, pra uma vacina que precisa ser “refeita” todos os anos, é claro que o match vacinal nunca vai ser perfeito… 

Além disso, 40% significa que a gente reduziu em quase metade os casos confirmados em laboratório, sem contar a proteção parcial contra formas graves. Nos anos em que o match é melhor, esse número sobe consideravelmente.

Concordo com quem diz que uma dose por ano pode ser insuficiente para bebês. E na verdade, essa preocupação é válida e está nos guidelines: crianças menores de 8 anos que tomam vacina de gripe pela primeira vez precisam de duas doses na mesma temporada, com intervalo de 4 semanas. 

Mas daí pra dizer que não vale a pena vacinar porque a eficácia é baixa comparada com outras vacinas, pera lá..

O que o estudo mostrou

Publicado em maio de 2026 no Lancet Child & Adolescent Health, o ensaio de fase 3 randomizou 5.723 crianças de 6 a 47 meses em 15 países para receber a vacina QIVc (quadrivalente derivada de cultura celular) ou uma vacina comparadora ativa. 

O desfecho primário analisado foi quadro de gripe confirmado por RT-PCR.

Os resultados foram os seguintes:

  • Eficácia vacinal geral: 41,3% (IC 97,98%: 21,6–56,0)

  • Número de crianças: 5.723, em 15 países ao longo de 2 temporadas

  • Confirmação do diagnóstico: RT-PCR (não apenas sintomas clínicos)

  • Perfil de segurança: comparável ao comparador ativo, sem sinais de alerta

E aqui vale parar um segundinho…

41,3% de eficácia contra gripe confirmada por PCR é o número que você vai apresentar para a família. 

Mas o que esse estudo adiciona é a comparação implícita com as vacinas tradicionais produzidas em ovos de galinha. 

No processo de adaptação ao ovo, os vírus influenza acumulam mutações que às vezes comprometem o match com a cepa circulante. 

A vacina de cultura celular elimina essa etapa e, portanto, chega à criança mais “fiel” ao vírus que realmente está circulando.

Em português simples: essa vacina foi desenhada para não "perder a forma" durante a fabricação. E os 41,3% refletem uma eficácia real, não inflacionada por um match vacinal favorável de temporada.

Mas o estudo tem uma limitação honesta (que na minha opinião até motiva ainda mais): o comparador em parte das crianças foi outra vacina de gripe (produzida em ovos), não placebo.. então a eficácia real contra não-vacinação pode ser ainda maior. 

Os autores reconhecem isso, mas apontam que uma comparação placebo controlada não seria ética nessa faixa etária (deixar criança sem vacinar sabendo do risco da doença não dá, né? Certissimos eles).

O que muda pra você, pediatra de consultório

Primeiro de tudo (e nem é mudança não): a vacina de gripe em menores de 5 anos tem indicação, tem evidência de fase 3 robusta, e tem um argumento biológico que você pode usar na consulta.

O que esse estudo faz é dar substância científica a uma recomendação que muitas vezes é dada por protocolo, sem o contexto que a família precisa para realmente aderir.

Na prática, te recomendo o seguinte:

  • Continue oferecendo vacina de gripe ativamente para toda criança de 6 meses a 4 anos (essa é a faixa com maior impacto de hospitalização e onde a eficácia tem mais peso clínico)

  • Lembre das duas doses na primovacinação: crianças menores de 8 anos que nunca tomaram vacina de gripe precisam de 2 doses na mesma temporada (intervalo de 4 semanas). Na prática, isso é quase sempre esquecido, tanto pelos pais quanto pelo sistema de saúde!

  • Reforce com os pais que sim, a vacina não é perfeita.. que a gripe muda todo ano e que a proteção é parcial porque seria impossível fazer vacina com match perfeito em toda temporada.. Mas tem um estudo novo com quase 6 mil crianças que mostrou que ela reduz em quase metade os casos confirmados em laboratório. E mais importante: que ela reduz os casos graves!

  • Sobre a Vacina de cultura celular (QIVc): quando disponível, tem vantagem biológica em relação às produzidas em ovos. Mas qualquer vacina de gripe aprovada é melhor do que nenhuma.

Isso não é empurrar uma vacina sem evidência, mas defender com dados uma recomendação que a família questiona toda temporada… (só quem viveu, sabe…)

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

Ensaio clínico de fase 3 com 5.723 crianças de 6 a 47 meses em 15 países, 2 temporadas consecutivas

Eficácia de 41,3% contra gripe confirmada por RT-PCR (IC 97,98%: 21,6–56,0)

Vacina derivada de cultura celular (QIVc): evita mutações que ocorrem durante adaptação em ovos, melhor match com cepa circulante

Não é placebo-controlado: comparador foi outra vacina ativa, logo a eficácia real vs. não vacinação pode ser ainda maior

Crianças até 8 anos em primovacinação precisam de 2 doses na mesma temporada (4 semanas de intervalo)

Para o consultório: use esse número (41,3%, quase 6 mil crianças, revista Lancet) como argumento qualificado para a família que questiona a eficácia

Gente, sempre vai ter uma mãe que vai chegar na consulta e perguntar: "Mas essa vacina funciona mesmo?"

Antes dessa edição, a resposta honesta era: "Funciona mais ou menos, depende do ano...", e a gente saía da consulta sem saber se convenceu (provavelmente não kkkk)

E bom, agora você tem quase 6 mil crianças, 15 países, 2 temporadas e uma publicação no Lancet para completar essa frase.

Funciona? Sim. 41% menos casos confirmados por PCR. E com uma explicação biológica por trás que faz todo sentido.

Então passa essa news pra aquele colega que ainda tá em cima do muro sobre vacina de gripe em bebê e ajuda ele a melhorar esse poder de convencimento.. É só enviar esse link aqui: https://thepedsjournal.beehiiv.com/subscribe

E falando em convencimento, semana que vem nos vemos com mais uma discussão quentinha de artigo! 

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC 💛

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