#20: Muito ajuda quem não atrapalha 👀

Discussão de um caso real da comunidade PDC

EDIÇÃO #20

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

🧷 O dia em que um umbigo virou discussão nacional (pelo menos no PDC, virou)

Você sabe como é: algumas coisas na pediatria chocam, outras só surpreendem… e algumas fazem o grupo do PDC pegar fogo às 8h da manhã rs

Foi exatamente isso que aconteceu quando uma colega compartilhou o caso REAL que ele atendeu no consultório e pediu ajuda dos colegas pra tentar ajudar o paciente (calma, curiosa(o)... o print do caso ta logo abaixo rs

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Cuidados com o coto umbilical + práticas atualizadas SBP (2024)

Fonte: Guia Prático da Sociedade Brasileira de Pediatria — Cuidados com a Pele e Anexos do RN [Acesse o documento completo aqui]

  • O caso clínico

  • Por que você deveria se importar?

  • Você acha que sabe, mas…

  • O que diz a SBP

  • A resolução do caso

  • Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

O caso clínico

Essa semana um colega pediatra enviou um caso para discussão na comunidade PDC, sobre um bebê de 30 dias, com coto ainda preso, sequinho, firme e aderido

Não tinha teste do pezinho para imunodeficiência primária e a vacina BCG tinha sido aplicada ao nascimento… sem reação aparente.

O colega estava sem imunologista na região, precisando conduzir sozinho o caso (até pedir ajuda na nossa comunidade, claro, pq lá ninguém tá sozinho, não 😌)

E é aí que a mágica do PDC acontece: pediatras do Brasil inteiro analisando juntos, trocando experiência real, e encontrando o equilíbrio entre evidência e prática…

E se você já pensou “epa… isso cheira a imunodeficiência”... ou “meu Deus, o que será que fizeram nesse coto?!”

…ou simplesmente sentiu o coração acelerar porque imuno é algo que te paralisa.. RELAXA. Você tá no lugar certo.

Por que você deveria se importar?

Porque, apesar de parecer “simples”, o cuidado com o coto umbilical é uma das áreas onde pequenos detalhes mudam totalmente o desfecho clínico.

E também porque, no dia a dia da pediatria, quase todo mundo acha que sabe orientar, mas na verdade repetindo condutas ultrapassadas…

A verdade é que o coto umbilical é uma estrutura anatômica vulnerável, com vasos abertos diretamente ligados à circulação sistêmica do recém-nascido.

Isso significa que qualquer irritação, inflamação ou contaminação ali não é um detalhe: é uma porta de entrada de bichos para o organismo frágil do bebê. E é por isso que, por muito tempo, a assepsia do local até a queda foi tão defendida.

Porém, ao mesmo tempo, exagerar na assepsia também pode prejudicar: produtos como álcool 70% alteram o pH local, irritam a pele, retardam a queda e podem criar microlesões, o que paradoxalmente aumenta ainda mais o risco de complicações que estavamos tentando evitar.

É exatamente por isso que a SBP atualizou o documento de cuidados com o coto: pra deixar no passado o que não funciona, reforçar o que é seguro e guiar o pediatra para condutas baseadas em evidências (e não na tradição da maternidade dos anos 90 heheh)

Você acha que sabe, mas…

Durante muitos anos, todo mundo ouviu (e repetiu) que o álcool 70% era essencial para “secar”, “desinfectar” e “evitar problema” no coto umbilical.

Só que a ciência mostrou, em estudos mais recentes, que isso não só não ajuda da forma que imaginávamos, como também pode atrapalhar.

Isso porque o álcool irrita a pele, altera a microbiota local, retarda a queda do coto e ainda aumenta a chance de granuloma…

A grande confusão é que, quando o coto demora a cair (especialmente acima de 30 dias), todo mundo surta pensando em imunodeficiência primária…

E é aí que entramos no “plot twist” da pediatria moderna:

👉 muito do que atrasa a queda do coto é… o próprio cuidado excessivo.

Eu sei, não ta fácil rs mas produtos irritantes, álcool, soluções desnecessárias, curativos abafados… tudo isso prolonga um processo que deveria ser natural.

Mas, o que diz a SBP atualmente, então?

O que diz a SBP

A SBP foi bem clara no documento mais recente sobre cuidados com a pele do recém-nascido: para bebês nascidos em ambientes estéreis (hospitais, maternidades), a limpeza rotineira do coto umbilical deve ser feita apenas com água e sabão, e NADA mais.

Isso mesmo: álcool 70% não entra mais no protocolo, nem clorexidina, nem nenhum outro “produto milagroso”.

Por quê? Porque o coto não é uma ferida aberta que precisa ser desinfetada todos os dias, mas um tecido em processo natural de mumificação.

Quando deixamos o ambiente mais seco, limpo e sem irritantes, o corpo faz o trabalho sozinho (e mais rápido rs)

A SBP reforça ainda que:

  • O uso rotineiro de antissépticos retarda a queda do coto, irrita a pele e pode levar à formação de granuloma.

  • Manipulação excessiva também atrapalha: nada de ficar “girando”, “mexendo”, “cutucando” ou aplicando cotonete sem necessidade.

  • A técnica recomendada é simples: banho normal → secar bem → manter arejado

O problema? Muita gente ainda está presa a condutas antigas. Presa MESMO. Aquele clássico: “mas sempre foi assim!” que é o terror do pediatra atualizado..

A resolução do caso…

Pois bem, pra todo mundo ver que na prática a gente REALMENTE pega esse tipo de coisa, ontem, o aluno enviou o feedback do caso…

“era só excesso de álcool, mesmo”.. que bom, né? Pro paciente, pro colega, pra todo mundo.. atualizado que é, ele pensou sim em exames de investigação mais “sofisticados”...

Mas como diz minha avó, “muito ajuda quem não atrapalha”, e nesse caso, se o pediatra que tivesse conduzindo o caso não soubesse dessa atualização, não orientaria a família e isso com certeza passaria batido.

A verdade é nós só consideramos diagnósticos que conhecemos, sempre.. e é por isso que é tão importante continuar estudando.

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

 Coto umbilical saudável = limpo e seco.

✅ Álcool 70% NÃO deve ser usado no cuidado rotineiro.

✅ Clorexidina 4% só em contextos de risco epidemiológico elevado.

✅ A queda pode demorar mais de 20 dias sem ser patológica.

✅ Atraso do coto + ausência de cicatriz de BCG (que pode levar até 3 meses) não diagnosticam imunodeficiência, mas pedem avaliação clínica criteriosa.

✅ Pediatra bem informado = bebê seguro + família confiante.

E se você chegou até aqui, parabéns, parabéns! Você ta cumprindo lindamente o que prometeu no seu juramento: sempre se atualizar e entregar o melhor para aqueles que são cuidados por você.

E isso é lindo demais. Da trabalho? Dá, muito. Mas é lindo demais hehe

Ah, e já vou aproveitar e ser bem direta e reta com você, principalmente você que ta aí enrolando pra entrar no PDC.

 📌 Semana que vem teremos uma oferta especial de Black Friday SIM

 📌 vai ser uma oferta histórica

 📌 você vai ficar p*** da cara quando se der conta de que perdeu

 📌 então fica ligada e para de enrolar.

e último, mas não menos importante: eu SEI o quanto esse passo vai te ajudar a construir a pediatria que você quer, em 2026 e nós somos amigas, por isso to te avisando REAL.

Nos vemos semana que vem nesse mesmooooo batcanal.

Com carinho (e sem álcool 70%),

Gabi do PDC