EDIÇÃO #42
The Peds Journal
A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!
Antes do próximo passo..
Boa noite! Tem coisa que a gente faz no automático há tantos anos que se esquece de questionar. "Aos 6 meses começa o ferro, 1 mg/kg/dia até os 2 anos." Sabe de cor, né? Pois é. Pode esquecer. Não é mais bem assim.
🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje
Tema: A nova diretriz da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre prevenção e tratamento da anemia ferropriva em lactentes - e por que sua prescrição de profilaxia precisa ser reescrita a partir de hoje
Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria. Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes - Atualização 2026. Diretriz nº 32. Departamentos Científicos de Nutrologia e Hematologia. Rio de Janeiro: SBP, 17 de março de 2026. https://www.sbp.com.br/recomendacoes-para-o-tratamento-e-prevencao-da-deficiencia-de-ferro-e-anemia-ferropriva-em-lactentes-atualizacao-2026/
Nessa edição você vai aprender:
Por que a SBP abandonou a dose por kg em lactentes a termo (e adotou dose fixa)
O novo esquema de ciclos com pausa: 3 meses usa, 3 meses para, 3 meses usa de novo (sim, sério)
Por que você NÃO precisa mais pedir hemograma de rotina no 1º ano em criança saudável
Como ficou a recomendação para prematuros (spoiler: praticamente igual)
A fala exata pra explicar pros pais por que mudou tudo (sem deixar eles em pânico)
Por que você deveria se importar?
Porque essa é uma das prescrições mais frequentes do consultório de pediatria e a forma como a gente vinha fazendo, há anos, mudou.
A anemia ferropriva continua sendo a deficiência nutricional mais prevalente do planeta, com cerca de 1,2 bilhão de pessoas afetadas e uma concentração brutal em crianças menores de 2 anos. No Brasil, mesmo com fortificação obrigatória de farinhas e Programa Nacional de Suplementação de Ferro rodando há décadas, ainda temos prevalências locais que assustam.
E o ferro não é só hemoglobina baixa. É desenvolvimento cerebral. É linguagem. É aprendizado. Crianças que tiveram deficiência de ferro nos primeiros 1000 dias de vida podem carregar marcas cognitivas para sempre, mesmo depois de tratadas. Por isso, a prevenção importa tanto. Por isso a gente prescreve com tanto carinho.
Só que tem um problema clássico: adesão.
Quem trabalha em consultório sabe. A mãe começa o ferro animada. Em 3 semanas tá enchendo o saco porque mancha o dente, dá cólica, o bebê cospe, fica constipado. No 4º mês ela já "esqueceu" e meio que abandonou. Aos 9 meses ela diz "ah doutora, eu dou de vez em quando".
Ou seja, a gente prescreve por 18 meses contínuos. A criança recebe por uns 4 meses na média. Resultado: profilaxia falha em boa parte da população que mais precisa.
A SBP olhou pra esse cenário, conversou com o Ministério da Saúde, olhou pro Programa Nacional de Suplementação de Ferro (que já tinha mudado em 2022) e falou: "tá na hora de unificar isso e fazer um esquema que funcione na vida real".
E aí veio a Diretriz nº 32 de 2026, publicada em 17 de março, que basicamente reescreveu o que a gente fazia. Vamos lá entender direitinho o que mudou.
Você acha que sabe, mas…
"Profilaxia de anemia ferropriva é 1 mg/kg/dia de ferro elementar dos 6 aos 24 meses, certo?"
Era. Não é mais.
"Ah, mas hemograma e ferritina aos 12 meses, pelo menos é seguro pedir, né?"
Em criança saudável, sem fator de risco, comendo bem e crescendo bem? Não. A nova diretriz NÃO RECOMENDA investigação laboratorial de rotina nesses casos.
Doideira, né?
Calma que faz sentido, segue o fio.
A questão é a seguinte: a SBP começou a perceber que a prescrição calculada por kg, com dose contínua por 18 meses, tinha 3 problemas grandes.
Primeiro: era difícil de calcular na hora da consulta (sim, é uma conta simples, mas multiplica por dezenas de consultas semanais e vira fricção).
Segundo: as famílias não aderem a tratamento contínuo de quase 2 anos, isso já é literatura consolidada.
Terceiro: divergia do que o Ministério da Saúde já recomendava no Programa Nacional de Suplementação de Ferro, criando a famosa confusão de "minha pediatra falou X, mas o posto tá dando Y".
E aí entra o conceito que a gente já viu em outras áreas da medicina e que é validado para suplementação de ferro: ESQUEMA INTERMITENTE COM CICLOS DE PAUSA. A lógica fisiológica é elegante. Quando você dá ferro contínuo por muitos meses, a hepcidina fica alta o tempo todo, o que paradoxalmente DIMINUI a absorção do ferro a cada dose. Quando você dá em ciclos com pausa, a hepcidina volta ao basal e a absorção da próxima rodada é MELHOR.
Ou seja: dose fixa + esquema de ciclos = mais simples de prescrever, mais fácil de aderir, fisiologicamente mais inteligente e alinhado com o Ministério da Saúde.
"Mas Julie, e se a criança tiver alguma deficiência subclínica e a gente não rastrear?"
Boa pergunta. A diretriz mudou exatamente isso: rastreio universal saiu, vigilância de fatores de risco entrou. Em criança com qualquer fator de risco, você investiga e a investigação ficou mais inteligente também (entrou PCR junto com hemograma e ferritina, exatamente porque ferritina é proteína de fase aguda e pode mascarar deficiência em estado inflamatório). Lindo, né?
O que o estudo mostrou
Antes de tudo, importante: a Diretriz nº 32/2026 não é um RCT, é um documento de consenso baseado em revisão sistemática conduzida pelos Departamentos Científicos de Nutrologia e Hematologia da SBP, em parceria com o Departamento de Nutrição Infantil da Sociedade de Pediatria de São Paulo e o Instituto PENSI. Ou seja, é a melhor síntese de evidência possível para o nosso contexto, não um estudo único.
Vamos ao que muda na prática (presta atenção, porque é detalhe que importa):
🔵 LACTENTE A TERMO, com peso adequado, sem fatores de risco
Quando começar: aos 6 meses de vida (preferencialmente, junto com a introdução alimentar)
Dose: 10 a 12,5 mg de ferro elementar por dia, em DOSE FIXA, independente do peso
Esquema: dois ciclos de uso intermitente
Ciclo I: uso diário dos 6 aos 9 meses (3 meses), seguido de pausa de 3 meses (dos 9 aos 12)
Ciclo II: uso diário dos 12 aos 15 meses (3 meses), seguido de pausa até os 24 meses
Total de tempo de uso ativo: 6 meses (e não mais 18 meses contínuos!)
Encerramento: aos 15 meses, se a criança não tiver desenvolvido fatores de risco
🟡 LACTENTE A TERMO, com peso adequado, mas que recebe LEITE DE VACA INTEGRAL antes do tempo recomendado
Quando começar: aos 4 meses de vida (e não aos 6), antecipação por causa da baixa biodisponibilidade do ferro do leite de vaca e maior risco de micro sangramento intestinal
Dose: mesma dose fixa de 10 a 12,5 mg/dia
Esquema: também em ciclos
🔴 PREMATURO ou RECÉM-NASCIDO COM PESO < 2.500g
Aqui a SBP foi mais cautelosa e MANTEVE o esquema individualizado por peso. Por quê? Porque essa população tem reservas muito menores, demanda muito maior e a margem de erro é menor.
Quando começar: aos 30 dias de vida
Dose no 1º ano de vida (baseada no peso ao nascer):
Peso entre 1.500g e 2.500g: 2 mg/kg/dia
Peso entre 1.000g e 1.500g: 3 mg/kg/dia
Peso < 1.000g: 4 mg/kg/dia
Dose no 2º ano de vida (12 a 24 meses): 1 mg/kg/dia (baseado no peso atual), CONTÍNUO, sem pausas
E aí vem a parte que mexe com o nosso piloto automático mais antigo:
🆕 RASTREIO LABORATORIAL: NÃO MAIS UNIVERSAL
A diretriz NÃO recomenda hemograma + ferritina de rotina em criança saudável, com crescimento adequado e alimentação adequada. Repito: criança saudável, comendo bem, crescendo bem, sem fator de risco = NÃO precisa pedir exame de rastreio só pela idade.
Quando rastrear?
Prematuros e baixo peso ao nascer
Falha ou má adesão à profilaxia
Inadequação alimentar persistente (pouca carne, muito leite, recusa alimentar importante)
Crescimento inadequado (déficit ponderal, estagnação)
Sinais clínicos sugestivos (palidez persistente, fadiga, irritabilidade, pica, atraso de desenvolvimento)
Hemorragia/perdas crônicas suspeitas
Quando pedir, peça o trio: hemograma + ferritina + PCR (essa é a novidade fina). A PCR entra justamente para a gente saber se aquela ferritina alta é estoque real ou inflamação mascarando deficiência.
Idade ideal para o rastreio em quem tem indicação: entre 9 e 12 meses de vida.
🆕 TRATAMENTO (uma vez confirmada a anemia)
Aqui as mudanças foram menores, mas vale revisar:
Dose: 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar (pode ser dose única ou fracionada)
Reavaliação: entre 30 e 45 dias após início, esperando aumento de hemoglobina de pelo menos 1 g/dL
Tempo de tratamento: até normalização da hemoglobina E reposição completa dos estoques (ferritina normalizada). Não para no "Hb melhorou", continua até a ferritina subir
Falha terapêutica: investigar adesão, inflamação, perdas ocultas, má absorção (e aí a investigação aprofunda)
🚨 Lembrete da semana:
Quer aprender na prática?
Vamos discutir UM CASO real de anemia ferropriva no "Passando Visita", uma aula ao vivo que vai acontecer no dia 21/05 às 20h. Vai ter uma criança real, com exames reais, com aquela história complicada que a gente vê no consultório e vamos aplicar tudo o que tá nessa edição na vida real.
Ou seja, leia essa edição com carinho, porque o que a gente vai discutir no Passando Visita já parte do princípio que você sabe a nova diretriz. Vai ser MUITO mais rico, MUITO mais clínico e MUITO mais aplicável quando a gente puder discutir o caso pressupondo a base teórica nivelada.
Marca aí na agenda: 21 de maio, Passando Visita, caso de anemia ferropriva. Bora?
O que muda pra você, pediatra de consultório
Aqui é onde a teoria vira ação na próxima consulta amanhã. Vamos por partes:
Refaça sua prescrição padrão de 6 meses.
A prescrição agora é mais SIMPLES, não mais complicada. Você não precisa mais calcular dose por kg em lactente a termo saudável. É 10 a 12,5 mg de ferro elementar/dia, em ciclos de 3 meses uso + 3 meses pausa.
Em sulfato ferroso (que costuma ter 25 mg de ferro elementar por mL/comprimido, dependendo da apresentação): a conta fica em geral em torno de 0,4 a 0,5 mL/dia. Confira a apresentação que você costuma prescrever, faça a conta uma única veze padronize. Se preferir uma alternativa com melhor tolerância, considere ferro bisglicinato quelato ou ferro polimaltosado, que tendem a ter menos efeitos adversos gastrointestinais e dentários.
Combine com a introdução alimentar.
Como o ferro entra junto com a IA aos 6 meses, aproveita pra fazer uma orientação alimentar de qualidade. A diretriz reforça que ALIMENTAÇÃO é prevenção primária, especialmente carne (boi, frango, peixe, fígado uma vez por semana) que tem ferro heme com biodisponibilidade enorme. Combinar com vitamina C (frutas cítricas, mamão, manga, acerola) na mesma refeição potencializa a absorção do ferro não-heme dos vegetais.
E o oposto: leite, café, chá e fitatos atrapalham a absorção. Então: nada de ferro com leite junto, nada de chá de camomila depois da papinha querendo "ajudar a digerir".
Pare com o "pede um hemograma aos 9 meses só pra ver".
Em criança saudável, comendo bem, crescendo bem, sem fator de risco, você não precisa mais pedir exame de rotina. Isso libera tempo, libera bolso da família, libera o serviço.
ATENÇÃO: isso NÃO significa nunca pedir. Significa pedir quando há indicação e a indicação tá ali na lista acima. Use o bom senso clínico, é exatamente isso que a diretriz pede.
Quando pedir, peça o trio completo: hemograma + ferritina + PCR.
Anota essa: PCR junto SEMPRE. Ferritina sem PCR é decisão clínica capenga. Em criança que teve viroses recentes (ou seja, todas elas), a ferritina pode estar artificialmente alta por inflamação e você liberar com "tá tudo certo" quando na verdade ela está com estoques baixinhos. PCR resolve esse problema em 1 segundo. Então anota aí:
Sem inflamação (PCR normal):
<5 anos: deficiência se ferritina <12 mcg/L
≥5 anos: deficiência se ferritina <15 mcg/L
Com inflamação (PCR elevada):
<5 anos: deficiência se ferritina <30 mcg/L
≥5 anos: deficiência se ferritina <70 mcg/L
Em prematuros, NÃO mude nada relevante.
A diretriz manteve o esquema individualizado por peso, contínuo, começando aos 30 dias. O que mudou foi praticamente nada neste grupo. Continue fazendo do jeito que você já fazia. Ufa.
A fala sugerida para a família é a seguinte:
"Olha, eu queria conversar com você sobre como a gente vai prevenir anemia no seu bebê de agora em diante. A Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou a recomendação esse ano, em março, e mudou bastante coisa. Antes a gente usava ferro todo dia por quase 2 anos seguidos, e a maioria das famílias acabava parando no meio porque enjoa. Agora a gente vai fazer em CICLOS: usa todo dia por 3 meses, dá uma pausa de 3 meses, e volta a usar por mais 3 meses. Total: 6 meses de uso ativo, em vez de 18. A ciência mostrou que isso funciona até melhor, porque o corpo absorve mais o ferro quando tem essas pausas. E pra você, fica muito mais fácil de cumprir. A dose também ficou padronizada, não depende do peso. Beleza?"
Essa fala tira da família a sensação de "minha pediatra mudou tudo do nada" e converte pra "a ciência avançou e a gente tá usando o melhor que tem". É 1 minuto de explicação e ganha pontos de adesão imensos.
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
✅ A SBP publicou em 17 de março de 2026 a Diretriz nº 32, com mudanças importantes na prevenção e tratamento da anemia ferropriva em lactentes
✅ Lactente a termo, peso adequado, sem fator de risco: profilaxia agora é DOSE FIXA de 10 a 12,5 mg de ferro elementar/dia (independe do peso), em CICLOS de 3 meses de uso (6-9m) + 3 meses de pausa + 3 meses de uso (12-15m) + pausa até 24 meses
✅ Lactente que toma leite de vaca antes do tempo: começa aos 4 meses, mesmo esquema
✅ Prematuro/baixo peso: PRATICAMENTE INALTERADO - dose por peso, contínua, começa aos 30 dias
✅ Rastreio laboratorial NÃO É MAIS UNIVERSAL: criança saudável, crescendo bem, comendo bem = NÃO precisa pedir exame de rotina. Reservar para grupos de risco e suspeita clínica
✅ Quando pedir exame, peça o TRIO: hemograma + ferritina + PCR (a PCR é a novidade fina, evita falso negativo da ferritina por inflamação)
✅ Tratamento da anemia confirmada: 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar, reavaliar em 30-45 dias, manter até normalizar Hb E ferritina
✅ Mensagem central: profilaxia mais simples + adesão mais fácil + alinhamento com o Ministério da Saúde + foco em alimentação adequada
Tem hora que diretriz nova bate na nossa rotina e dá vontade de revirar os olhos. Mais uma coisa pra mudar, mais um esquema pra decorar.
Mas essa aqui veio pra simplificar a nossa vida, não pra complicar. Dose fixa em vez de cálculo por kg, ciclos em vez de continuidade infinita, alinhamento com o SUS em vez de divergência. E o melhor: fundamentado na realidade brasileira de adesão e na fisiologia do ferro.
Anemia ferropriva é uma das poucas doenças graves da infância que a gente PODE prevenir com uma intervenção simples, barata e amplamente disponível. Quando a gente perde adesão a uma profilaxia, não é só uma "consulta que não rolou bem", é potencialmente um déficit cognitivo permanente em uma criança que dependia da gente.
Então a missão dessa semana é: revisar sua prescrição padrão, atualizar seus modelos no prontuário eletrônico e treinar a fala pros pais. Em 15 minutos você atualiza tudo. E na próxima consulta de 6 meses, você já tá aplicando.
Pessoal, a pediatria de consultório é exatamente isso: dominar o básico da rotina com a melhor evidência disponível. Profilaxia de anemia ferropriva não é tema chique de congresso, mas é uma das prescrições mais importantes da nossa vida profissional.
E lembre-se: nossa profissão é um trabalho coletivo. A gente trabalha muito melhor em "time" do que sozinho.
Então, qual a sua forma de ajudar um colega a perceber esse ponto cego?
Ó, quer uma sugestão fácil, rápida e gratuita? Manda a inscrição da nossa revista científica pra ele/ela.. Custa zero reais (pra você e pro colega) e pode mudar a forma como ele/ela vai conduzir a próxima consulta de 6 meses.
É só enviar esse link aqui: https://thepedsjournal.beehiiv.com/subscribe
No mais, nos vemos na semana que vem, rigorosamente, nesse mesmo local!
Beijinhos científicos,
Julie do PDC 💛
