#21: O Pneumococo mudou. A vacina também.

O documento que finalmente organiza o “caos pneumocócico” rs

EDIÇÃO #21

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

Que o pediatra não pode tirar férias, é mentira, mas…

Tem um bicho que não tira férias de jeito nenhum.. ele se chama PNEUMOCOCO. E com tanta mudança no calendário, não dá pra ser aquele pediatra que congela quando o assunto é vacinação, sorotipos disponíveis, intercambialidade, etc.

Hoje você vai sair daqui entendendo exatamente como prevenir a doença pneumocócica de acordo com as novas atualizações da SBP.

E já que o assunto é ficar mais forte, deixa eu te contar uma coisa:

Começou a Black Week do PDC 🖤

E, sim, é A semana do ano.

Se você gosta do que aprende aqui gratuitamente nas terças-feiras, imagina ter toda a biblioteca do PDC, todas as atualizações, todas as aulas, todos os guias, toda a comunidade, todo o suporte, por DOIS ANOS pagando apenas um?

Pois é. Dessa vez a gente exagerou (e ainda bem, porque pediatra que se atualiza muda vidas e merece condições especiais pra isso)

Então… antes que acabe e você se arrependa na sexta-feira: clica aqui e garante o seu acesso. Seu eu de 2026 no consultório te agradece, viu?

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Prevenção da Doença Pneumocócica em Pediatria (2025–2028)

Fonte: Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Pediatria — Departamento Científico de Infectologia [Acesse o documento completo aqui]

  • Por que você deveria se importar

  • Você acha que sabe, mas…

  • O que realmente mudou

  • Vacinas disponíveis e quando usar

  • Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

Por que você deveria se importar?

Porque se existe um vilão que continua fazendo um estrago silencioso na pediatria brasileira, ele se chama Streptococcus pneumoniae.

A doença pneumocócica segue sendo uma das principais causas de meningite bacteriana, pneumonia, sepse e otite (especialmente nos menores de 5 anos).

E mesmo após o grande avanço que tivemos com a implementação da VPC10 no PNI, o cenário epidemiológico foi mudando ao longo do tempo…

Os sorotipos que mais adoecem crianças hoje não são mais os que a VPC10 cobre (especialmente 19A, 3 e 6A/6C, responsáveis por mais de 65% dos casos de doença invasiva nessa faixa etária).

Ou seja: mesmo com boa cobertura vacinal, a vacina disponível no sistema não conversa mais com os sorotipos que realmente estão circulando.

E é por isso que tanta vacina “nova” surgiu nos últimos anos, e é isso que vem gerando tanta confusão entre pediatras por aí.

E é por isso que vamos desmistificar isso AGORA hehe

Você acha que sabe, mas…

Não, pneumococo não é tudo igual. E não, as vacinas pneumocócicas não protegem “do mesmo jeito”.

Como falamos anteriormente, a VPC10 ajudou MUITO quando entrou no calendário. Mas com a mudança dos sorotipos circulantes (e isso explica a explosão de casos pelos sorotipos 19A, 3 e 6A/6C), ela deixou de cobrir justamente esses principais vilões atuais.

Daí surgem as vacinas ampliadas (13, 15 e 20-valente): não para “substituir a VPC10 porque ela não presta”, mas porque o alvo mudou, e a vacina precisa acompanhar a epidemiologia.

E aqui vão alguns “mitos de estimação” que muitos pediatras se recusam a largar:

  1. “Se o esquema com VPC10 está completo, então tá tudo certo.”

Infelizmente… não. O documento da SBP é cristalino: mesmo com esquema completo com a VPC10, essas crianças ainda se beneficiam de doses adicionais das vacinas ampliadas, desde que respeitando idade e intervalo.

  1. “Depois dos 2 anos entra VPP23 pra todo mundo, né?”

Também não. Crianças saudáveis não precisam (e não devem) usar VPP23. Ela só entra em casos específicos, para grupos com fatores de risco bem definidos.

Respira. Organiza o sorotipo. Toma um gole de café.

Agora sim a casa vai começar a ficar em ordem.

O que mostram as evidências

A grande virada do documento não foi só “atualizar nomes de vacinas”, e sim reposicionar totalmente a estratégia pneumocócica no Brasil, levando em conta essa mudança epidemiológica recente (de novo, especialmente o aumento dos sorotipos 19A, 3 e 6A/6C, hoje protagonistas da doença pneumocócica invasiva no país).

Agora, o pulo do gato ta aqui:

  1. Crianças previamente vacinadas com VPC10 agora têm indicação de receber doses adicionais de vacinas ampliadas (13, 15 ou 20-valente).

Antes, quem tinha esquema completo com VPC10 era considerado “ok”.

Agora, por causa dos sorotipos não cobertos, a SBP orienta dose(s) adicional(is) até 5 anos de idade, respeitando a bula e mantendo intervalo mínimo de 2 meses entre as doses.

E mais (repita essa comigo, POR FAVOR): as vacinas são intercambiáveis. Ou seja, pode misturar 13, 15 e 20 conforme disponibilidade e idade.

Mesmo para quem já completou esquema com Pneumo10? SIM.

E se não completou o esquema com Pneumo10? Completa e depois faz reforço com as outras OU, reinicia o esquema com 13, 15 ou 20 🙃

  1. Reforço da importância das vacinas ampliadas como preferência sempre que disponíveis.

O documento deixa claro que, do ponto de vista de proteção populacional e individual, VPC13, VPC15 e VPC20 são superiores por cobrirem sorotipos que hoje causam a maior parte das doenças graves.

Então no seu consultório particular você vai recomendar o que, se a família pode pagar? VPC13, VPC15 ou VPC20. Não VPC10.

  1. VPP23 NÃO É vacina de rotina e só entra em grupos de risco.

O documento atual reforça fortemente isso. Para crianças saudáveis, a VPP23 não tem papel. NÃO tem.

Ela deve ser usada apenas em condições clínicas específicas, como para pacientes com doença falciforme, HIV, asplenia, etc..

Ou seja: nada de sair prescrevendo para todo mundo.

  1. O raciocínio agora é epidemiológico, não automático.

A mensagem central é:

“A doença mudou. A vacina precisa mudar junto.”

O calendário 2025–2028 não descarta a VPC10, mas ele completa e corrige suas lacunas com o uso das vacinas ampliadas, ajustando proteção para os sorotipos atualmente mais relevantes.

Vacinas disponíveis e quando usar

Para crianças saudáveis:

  • VPC13, VPC15 ou VPC20 podem ser utilizadas em qualquer fase (início, meio ou fim do esquema).

  • Se já fez esquema completo VPC10 → beneficia-se de complementação com VPC13/15/20.

  • Não usar VPP23 em crianças saudáveis com esquema completo.

Para crianças com fatores de risco*:

  • Preferir VPC ampliadas desde 6 semanas de vida.

  • Acima de 2 anos:

    • 1 dose de VPC20, ou

    • Esquema VPC + VPP23, respeitando intervalo mínimo de 8 semanas.

Reforços podem ser necessários dependendo da condição clínica.

*Aqui, a SBP lista: asplenia, HIV, imunodeficiências, doenças renais, cardiopatias, pneumopatias graves, entre outras.

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

 Pneumococo segue como principal causa de meningite bacteriana no Brasil

✅ Sorotipos atuais de maior impacto: 19A, 3 e 6A/6C

✅ SBP recomenda vacinas ampliadas (13, 15 ou 20-valente) sempre que disponíveis.

✅ Considerando a atual epidemiologia da doença, crianças saudáveis menores de 6 anos de idade com esquema vacinal completo ou incompleto com a VPC10 se beneficiam de dose(s) adicional(is) das vacinas 13, 15 ou 20-valente (conforme recomendação de bula para cada idade), respeitando-se um intervalo mínimo de 2 meses em relação à última dose de VPC10

✅ Crianças com fatores de risco → preferir ampliações + considerar VPC20 ou VPP23 conforme a idade

✅ Sorologia NÃO serve para medir proteção vacinal

✅ Vacinas pneumocócicas conjugadas são intercambiáveis em qualquer momento

E se você chegou até aqui, parabéns… seu cérebro acabou de ganhar a terceira dose de proteção contra as fake news em pneumococo.

Se existisse carteira de vacinação do raciocínio clínico, você já estaria COMPLETAMENTE IMUNIZADA(O) rs

Brincadeiras à parte: quando a gente fala de prevenção da doença pneumocócica, não estamos falando de detalhe.

Estamos falando de vida real, de casos que vemos toda semana, de crianças que dependem da gente para receber a proteção certa, no momento certo. E dominar essas atualizações, mesmo quando parecem pequenas, muda esse jogo do cuidado.

Nos vemos semana que vem, com mais ciência, mais prática e mais risadas (porque ninguém é de ferro eheheh).

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC 💛