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#17: O tratamento mais barato da pediatria
Nem tudo que é “salgado” é caro rs
EDIÇÃO #17
The Peds Journal
A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!
O único local da área da saúde onde o SAL é bem vindo…
Tem coisa que se resolve no consultório. Tem coisa que se resolve no PS. E tem coisa que resolve... na cozinha, com “tompero” rs 🧂Calma, você já vai entender!
🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje
Tema: Tratamento do Granuloma de Coto Umbilical
Fonte: Efficacy and Safety of Common Salt and Other Topical Agents in the Treatment of Umbilical Granuloma: A Systematic Review and Meta-analysis — Journal of Indian Association of Pediatric Surgeons, 2025. [🔗Acesse o documento completo aqui]
Por que você deveria se importar?
Você acha que sabe, mas…
O que o estudo avaliou
O que os resultados mostraram
Como orientar na prática
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
Por que você deveria se importar?
Porque eu tenho certeza ABSOLUTA que você vai ver um caso de granuloma umbilical no consultório e vai ficar sem saber o que fazer…
Isso porque praticamente 100% dos pediatras de consultório já se depararam com aquele umbigo meio úmido, meio avermelhado, e o dilema vem rápido: nitrato de prata? Sulfato de cobre? Pomada mágica da avó? Encaminhar pro cirurgião?
Pois é. O problema é que, por mais simples que pareça, o tratamento errado pode causar queimaduras, atraso na cicatrização e até complicações infecciosas.
E em tempos de medicina DESbaseada em evidência (e de pais Dr. Google e ChatGPT), saber o que realmente funciona (e é seguro) é mais que fundamental.
Bora aprender esse tratamento, então?!
Você acha que sabe, mas…
Sabe aquele momento em que o coto umbilical finalmente cai e os pais acham que acabou o drama do umbigo? Pois é… às vezes, não acabou.
O granuloma umbilical aparece quando o tecido de granulação, que deveria sumir naturalmente, resolve ser protagonista: ele cresce demais, formando uma pequena elevação úmida, rosada e não dolorosa, geralmente com secreção serosa discreta.
Não é infecção, não é pólipo e nem algo “grave”.. é só o processo de cicatrização que passou um pouquinho do ponto, mesmo rs
Por muito tempo, o tratamento padrão foi feito com nitrato de prata. Aquela cauterização clássica, rápida, mas que exige um toque de precisão quase que cirúrgica.. porque convenhamos, nem sempre a aplicação é suave: basta uma escorregadinha e pronto, a pele ao redor sai com uma bela queimadura química de lembrança.
Alguns serviços passaram a usar sulfato de cobre, álcool absoluto ou até pomadas com corticoide, mas sempre sob supervisão médica e com custos (ou riscos) maiores.
E é aí que ELE entrou em cena.. o sal de cozinha! Sim, aquele mesmo que tá na cozinha da casa de todo mundo, que os nefrologistas odeiam rs
E a proposta, que antes soava como “receita da avó com jaleco”, foi posta à prova em ensaios clínicos e revisões sistemáticas: o sal age por desidratação osmótica, seca o tecido granulomatoso e promove cicatrização sem agredir a pele saudável.
O resultado? Efetividade igual aos agentes químicos tradicionais, só que sem queimaduras, sem custo e com um toque de praticidade que faria qualquer R de neonatologia chorar de emoção heheh
O que o estudo avaliou
Essa foi uma revisão sistemática e meta-análise de 6 ensaios clínicos randomizados, envolvendo mais de 400 recém-nascidos e lactentes com diagnóstico de granuloma umbilical.
Os autores compararam o uso de sal comum com os agentes tópicos mais utilizados: nitrato de prata, sulfato de cobre e corticosteroides tópicos.
Os pesquisadores avaliaram três pontos principais:
Taxa de resolução completa da lesão;
Tempo de cicatrização;
Ocorrência de efeitos adversos (como queimadura, irritação ou infecção local).
O acompanhamento variou de 5 a 14 dias, e todos os estudos incluídos foram realizados em ambientes ambulatoriais (o que reforça o caráter prático e aplicável do tema para o pediatra da vida real, tipo você.
O que os resultados mostraram
Os resultados foram, literalmente, um “banho de sal” na cara do ceticismo rs. A revisão mostrou que o sal de cozinha, aplicado de forma simples (geralmente duas vezes ao dia, por 3 a 5 dias, como mostrado na imagem abaixo), teve taxas de cura entre 93% e 100%, equivalentes às obtidas com nitrato de prata e sulfato de cobre.

Além disso, o tempo médio de cicatrização foi semelhante ou até menor com o uso do sal, especialmente em bebês tratados nos primeiros dias após o diagnóstico.
O grande diferencial, no entanto, veio na segurança: nenhum dos estudos relatou queimadura, ulceração, dor significativa ou complicações locais no grupo tratado com sal.
Por outro lado, o nitrato de prata apresentou taxas de irritação cutânea em até 15% dos casos, e o sulfato de cobre, apesar de eficaz, também mostrou potencial de toxicidade se usado de forma inadequada.
Outro ponto interessante é o grau de adesão, e aqui entra o charme do sal: por ser acessível, barato e de fácil aplicação, as famílias seguiram o tratamento com muito mais consistência. A simplicidade do método parece ter sido o maior diferencial para o sucesso clínico (“menos é mais” não é só banda de pagode heheh)
Ou seja, o sal não apenas funciona tão bem quanto os agentes tradicionais, como é mais seguro, mais barato e mais viável em contextos de atenção primária (especialmente em países de baixa e média renda, como o nosso).
E tudo isso sem comprometer a cicatrização nem aumentar risco de infecção. Coisa linda, né?
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
✅ O sal comum é tão eficaz quanto nitrato de prata e sulfato de cobre;
✅ É mais seguro, sem risco de queimadura química;
✅ É barato, acessível e possível de orientar para uso domiciliar supervisionado;
✅ Pode ser considerado tratamento de primeira linha para granuloma umbilical não complicado;
✅ Sinais de infecção = suspender uso e reavaliar (onfalite não entra no pacote).
Bom, se você chegou até aquii.. Parabéns! Você acaba de provar que dá pra temperar a pediatria com ciência, humor e, às vezes, até com sal de cozinha! kkkkk
Enquanto muita gente ainda torce o nariz pra condutas “simples demais”, você entendeu o essencial: evidência não é sinônimo de complexidade, e o que funciona de verdade é o que é seguro, eficaz e aplicável no dia a dia!
Na próxima edição, a gente promete outro tema daqueles que fazem o raciocínio clínico ficar salgado (rs), mas, até lá, fica o convite pra compartilhar essa The Peds com aquele colega que ainda acha que granuloma só se trata com nitrato de prata…
Afinal, conhecimento bom é aquele que a gente divide, igual o sofrimento da residência rs
Beijinhos científicos,
Gabi do PDC