EDIÇÃO #44
The Peds Journal
A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!
🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje
Tema: Tratamentos não farmacológicos para constipação funcional pediátrica: o que realmente funciona
Fonte: Arruda Navarro Albuquerque et al. Eficácia de intervenções não farmacológicas na constipação funcional pediátrica: revisão sistemática e meta-análise em rede. BMJ Paediatrics Open, janeiro de 2026. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41605533/
Nessa edição você vai aprender:
Por que a constipação funcional virou um problema crônico no consultório e o que acontece quando a gente só prescreve medicação laxativa
O que a meta-análise de 93 estudos descobriu sobre exercício de assoalho pélvico, estimulação elétrica e probióticos
O achado mais contraintuitivo do estudo (spoiler: envolve terapia comportamental)
Como montar uma abordagem complementar para as famílias motivadas
Por que você deveria se importar?
Bom, porque constipação funcional aparece em 1 a cada 10 crianças em consulta pediátrica e, em boa parte delas, o macrogol virou um tratamento quase que permanente.
E claro.. ele resolve. Então a família aguenta por um tempo. Mas depois, começa a perguntar se tem outra saída.
E você sabe que existe (hidratação, aumento da ingestão de fibras, rotina…), mas confessa que isso por si só raramente resolve de vez.
O problema real é que as intervenções não farmacológicas nunca tinham sido comparadas de forma sistemática.
Cada estudo testava uma coisa: probiótico aqui, exercício lá, biofeedback acolá. Impossível saber o que valia mais a pena recomendar.
E não que o macrogol seja errado, de jeito nenhum. Mas essa meta-análise serviu para hierarquizar as opções NÃO farmacológicas (e a hierarquia que apareceu não era a que a maioria esperava!)
Os pesquisadores do grupo brasileiro liderado por Arruda Navarro Albuquerque identificaram e analisaram 93 ensaios clínicos randomizados com 7.787 crianças e escreveram essa revisão sistemática e meta-análise que permitiu comparar intervenções que nunca foram testadas diretamente entre si.
A pergunta que esses autores fizeram foi: o que funciona de verdade para aumentar a frequência de evacuações na constipação funcional pediátrica?
A resposta veio com surpresas. E com um achado que você precisa conhecer antes de recomendar a próxima intervenção.
Você acha que sabe, mas…
Tem muita gente recomendando probiótico para constipação como se fosse coisa resolvida.. "Aah, é natural, inofensivo, pode dar".
Essa meta-análise avaliou probióticos e simbióticos dentro de 93 RCTs. Simbióticos (probiótico + prebiótico) tiveram o maior RR numérico da análise (2,32 comparado a placebo), mas com certeza de evidência baixa.
O probiótico isolado mostrou efeito inconsistente entre os estudos. Ou seja: pode funcionar, mas a evidência ainda é fraca demais para recomendar com convicção “científica”.
Outra intervenção (que muita gente desconhece) é a fisioterapia do assoalho pélvico. “Ahhh não, mas isso é coisa de adulto, de gestante…”
Gente, olha só: a combinação de exercício de assoalho pélvico com estimulação elétrica anal transcutânea foi a intervenção com maior evidência de toda essa meta-análise: um RR de 1,75 (95%CI 1.25 to 2.44), quando comparada à fisio pélvica isolada.
Então não é coisa só de adulto, não.. Quando combinada, é a intervenção mais promissora para constipação funcional pediátrica hoje.
Ah, e agora o achado mais contraintuitivo do estudo: a terapia comportamental associada ao macrogol (ao contrário do esperado) não aumentou a taxa de resolução da constipação (RR 0,83, sem significância) e, pior, ainda reduziu a frequência de evacuações (diferença de média de -1,80 evacuações por semana, com significância estatística).
Os próprios autores levantam hipóteses sobre isso (interferência na autonomia da criança, viés de seleção…), mas o achado é suficientemente robusto para gerar cautela antes de combinar terapia comportamental com laxante como o "melhor dos mundos" para aqueles casos mais complexos...
O que o estudo mostrou
Publicado em janeiro de 2026 no BMJ Paediatrics Open, o estudo identificou 93 RCTs com 7.787 crianças submetidas a intervenções não farmacológicas para constipação funcional pediátrica.
Foi uma meta-análise em rede, isto é, método que permite comparar indiretamente intervenções que nunca foram testadas lado a lado no mesmo estudo.
Os resultados, organizados por certeza de evidência pelo GRADE (Certainty Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluations), foram os seguintes:
Estimulação elétrica anal transcutânea + exercício de assoalho pélvico (ATES + PFME): RR 1,75, certeza MODERADA pelo GRADE
Neuromodulação tibial percutânea + exercício de assoalho pélvico (PTNS + PFME): sucesso do tratamento com RR 1,73, certeza BAIXA pelo GRADE
Simbióticos vs. placebo: RR 2,32, certeza BAIXA
Terapia comportamental + macrogol: RR 0,83 (sem melhora) e redução de -1,80 evacuações/semana (p < 0,05), certeza também BAIXA pelo GRADE

Aqui vale parar um pouquinho.
"Como funciona a estimulação elétrica anal transcutânea + exercício de assoalho pélvico (ATES + PFME)?" - é ESSA a pergunta que a gente precisa fazer pra entender porque esses resultados são como são.
A estimulação elétrica anal transcutânea age sobre os nervos sacros e pudendos que controlam a motilidade retal e a contração do esfíncter anal interno.
Ao mesmo tempo, o exercício de assoalho pélvico treina a coordenação da musculatura desse assoalho, que em muitas crianças com constipação funcional está paradoxalmente contraída, criando disfunção evacuatória.
Dessa forma, a combinação das duas trata tanto a inervação quanto a biomecânica. Claro que o efeito não é imediato.. os estudos trabalham com protocolos de semanas a meses. Mas o resultado funcional é sustentado!
Ah, e sobre os probióticos, tão na “moda” ultimamente, o estudo também mostrou que a heterogeneidade entre os estudos de probióticos é bastante alta, o que os próprios autores alertam dificultar qualquer conclusão firm (mas o sinal de efeito existe e merece investigação mais robusta, com criação de protocolos padronizados).
O que muda pra você, pediatra de consultório
Primeiro de tudo: o macrogol (PEG) continua sendo primeira linha na fase de desimpactação e manutenção inicial. Isso não mudou.
O que esse estudo faz é abrir uma janela real para intervenções complementares (com hierarquia de evidência) nas crianças que não conseguem desmame do laxativo ou cujas famílias buscam alternativas.
Na prática, te recomendo o seguinte:
Para a criança com constipação funcional recorrente, com família motivada, você pode encaminhar para a fisioterapia pediátrica especializada em disfunções do assoalho pélvico.
Estimulação elétrica anal transcutânea + exercício de assoalho pélvico é o protocolo com maior respaldo.. E vale lembrar (você e a família rs) que NÃO se trata de um procedimento invasivo.. é aplicado externamente, adaptado para crianças, e os protocolos já existem e são validados!
Sobre simbióticos: se a família quer algo mais "natural" enquanto mantém a medicação laxativa, os simbióticos (combinação de pré e probióticos) têm o maior sinal de efeito da meta-análise (mesmo com certeza baixa).
Então assim, vale uma conversa honesta: "Ó, tem sinal de benefício, mas a evidência científica ainda não é forte o suficiente para afirmar com certeza que o negócio funciona. Se quiser tentar, podemos tentar."
E aí, pra família que vem querendo tirar o PEG a todo custo, a gente precisa sempre esclarecer: "olha, o macrogol precisa ficar por agora… Mas tem uma abordagem nova, com um estudo enorme de 93 pesquisas e quase 8 mil crianças, que mostrou que exercício de assoalho pélvico com estimulação elétrica funciona e funciona MUITO para esses casos mais complexos. Eu também quero que ele(a) saia do remédio eventualmente, e esse pode ser o caminho. Mas nesse momento, melhor a gente encaminhar para uma fisioterapeuta pediátrica e tentar essa combinação."
Isso não é abandonar a medicação laxativa, mas é uma tentativa de construir uma abordagem mais completa para uma condição que costuma ser tratada, muitas vezes, de forma reducionista.
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
✅ Meta-análise em rede: o maior compilado de evidência sobre intervenções não farmacológicas em constipação pediátrica, feita por um grupo brasileiro
✅ Melhor evidência: estimulação elétrica anal transcutânea + exercício de assoalho pélvico, RR 1,75, certeza moderada
✅ Neuromodulação tibial percutânea + exercício de assoalho pélvico também é promissora (RR 1,73), mas com certeza baixa
✅ Simbióticos: maior RR numérico (2,32 vs. placebo), mas certeza baixa (pode ser recomendado, mas com ressalvas)
✅ Surpresa da meta-análise: terapia comportamental + macrogol não aumentou resolução e ainda reduziu frequência de evacuações (pode ser viés de seleção, mas…)
✅ Para o consultório: encaminhe para fisioterapia pediátrica especializada para casos de constipação recorrente que não conseguem desmame da medicação laxativa
Gente, Constipação funcional é um daqueles diagnósticos que a gente fecha em dois minutos na consulta, mas que a família carrega por meses (às vezes anos)
Prescrever macrogol é correto, claro. Mas a família que pergunta se a criança vai precisar daquilo pra sempre merece uma resposta melhor do que "vamos ver".
E agora você tem 93 estudos com quase 8 mil crianças e uma hierarquia de intervenções para complementar a medicação, e para dar a essa família uma perspectiva real do desmame.
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E nos vemos na semana que vem, nesse mesmo batlocal!
Beijinhos científicos,
Gabi do PDC 💛
