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#24: Sua avó estava certa (mesmo!)
Quando “remédio caseiro” vira evidência robusta
EDIÇÃO #24
The Peds Journal
A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!
Se mel fosse remédio, já teria fila no balcão da farmácia…
Mas como não é, a gente tem que contar aqui mesmo o que a evidência diz sobre ele na tosse aguda.. spoiler: sua avó estava MUITO perto da verdade rs
🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje
Tema: Uso de mel para tosse aguda em crianças
Fonte: Honey for acute cough in children - Cochrane Review, 2018 [Acesse o documento completo aqui]
Por que você deveria se importar?
Você acha que sabe, mas…
O que o estudo avaliou
O que os resultados mostraram
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
Por que você deveria se importar?
Porque a tosse aguda é praticamente um patrimônio da infância (além de uma causa olímpica de desespero parental rs). Só aí, já valeria você se importar.
Mas o pior (e acredito que vocês vão concordar) não é nem a tosse, é o clássico “Dra, mas não tem algum xarope que resolva rápido isso?” que vem com ela…
E todos sabemos que o cenário real é o seguinte:
Tosse é um sintoma, não uma doença… tratar a tosse é tratar (com ou sem medicamento) a CAUSA dela
Não existe antitussígeno farmacológico de venda livre com eficácia comprovada em crianças
Muitos dos xaropes disponíveis, além de não ajudarem, ainda são potencialmente perigosos…
E aí a mãe chora e o filho não vê, né, minha gente…
Porque aí começa automedicação pra ca, vick vaporub pra la, xarope caseiro de asa de borboleta e demais receitas “mágicas” (e nojentas, confesso kkk) pra fazer a tosse do menino ir embora
E é aí que entra ele, tão criticado em alguns momentos, mas que sabe ter seu papel: o mel 🍯!
E vou contar uma coisa pra vocês.. muito antes de ter comprovação cientifica, minha mãe “cantou essa pedra”.
Dos meus 7 anos até a adolescência, tenho lembranças de minha mãe fazendo chá de leite com mel e especiarias toda vez que eu tinha tosse.
Ela jurava que funcionava, mas desde 2018 realmente existem EVIDÊNCIAS de que ela estava certa. E não é qualquer evidência não, viu? É revisão da Cochrane, super robusta.
Você acha que sabe, mas…
Você provavelmente já ouviu que “começou a tossir? Dá um melzinho.. é só um ingrediente caseiro da vovó, é inofensivo”, certo?
Pois bem… a ciência resolveu entrar na conversa, e as avós de meio Brasil estão dando risada até hoje, porque, aparentemente, o mel realmente funciona para tosse aguda.
Antes de qualquer coisa, vamos alinhar a base: mel não é xarope, não é expectorante e não é antitussígeno.
Ele age de um jeito totalmente diferente: criando um filme protetor suave na mucosa, reduzindo irritação e trazendo uma sensação de conforto que, pasme, tem efeito mensurável em ensaios clínicos.
Isso sem falar das propriedades antioxidantes e antimicrobianas que os estudos vêm descrevendo.
E aí entra a parte que quase ninguém sabe: comparado a xaropes comuns utilizados pra tosse (tipo a benção, pra não falar outra coisa feia, da difenidramina), o mel se sai igual ou melhor… e com muito menos risco.
Mas pera, não é porque é “natural” que pode tudo, né?
❗ menores de 1 ano não podem consumir mel por risco de botulismo infantil.
Mas acima dessa idade, se usado da maneira correta, ele se torna uma das poucas estratégias realmente embasadas para aliviar tosse infantil.
Em uma: a ciência validou aquilo que muitas mães (inclusive a minha kkkk 😅) sempre souberam empiricamente: mel ajuda sim, e ajuda de verdade!
O que o estudo avaliou
A revisão Cochrane (2018) reuniu ensaios clínicos randomizados comparando mel, placebo, nenhum tratamento ou antitussígenos comuns em crianças de 1 a 18 anos com tosse aguda (aquela com duração <14 dias).
Os estudos avaliados analisaram: intensidade da tosse, frequência, impacto no sono da criança e dos pais e melhora geral dos sintomas.
E tem um detalhe importante: todos os desfechos eram relatados pelos cuidadores, o que deixa o estudo ainda mais aplicável à prática clínica.
Afinal, é exatamente assim que decidimos se uma tosse está melhorando ou não: ouvindo quem convive com ela às 2h da manhã rs
No fim das contas, a revisão não estava tentando descobrir “como o mel age”, mas sim uma pergunta muito mais útil: dar mel melhora a tosse de forma percebida pelas famílias? (Spoiler: sim, e mais do que muito antitussígeno por aí 👀)
O que os resultados mostraram
A revisão Cochrane trouxe um recado direto: o mel funciona, e funciona melhor do que muitos antitussígenos amplamente usados.
Nos estudos analisados, o mel reduziu a intensidade e a frequência da tosse de forma mais eficaz do que placebo, do que nenhum tratamento e até mais do que medicamentos.
Sim: o mel venceu o “xaropinho” clássico de prateleira.
Além disso, houve melhora consistente em dois pontos cruciais pra vida real:
As crianças dormiram melhor,
Os pais dormiram melhor (o que, convenhamos, já torna o mel patrimônio da saúde pública infantil rs).
Os cuidadores relataram melhora global dos sintomas com o mel.. não só tosse, mas o pacote inteiro de “criança menos irritada + noite menos caótica”.
Ta, mas e a segurança? Que bom que você perguntou… a revisão reforça que o mel é seguro para crianças acima de 1 ano. Jamais esquecer disso!.
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
✅ Mel funciona mesmo para tosse aguda em crianças ≥1 ano: melhora intensidade, frequência e qualidade do sono.
✅ Mel é mais eficaz que placebo, nenhum tratamento e até que xaropes clássicos” em vários estudos.
✅ Dose usada nos estudos: 2,5 a 5 mL (dependendo da idade), 30 minutos antes de dormir.
✅ Não custa lembrar: Nunca oferecer mel para menores de 1 ano (botulismo!)
✅ Antitussígenos comuns não mostraram benefício superior (e muitos têm risco de eventos adversos)
E se você chegou até aqui, parabéns… você acaba de completar VINTE E QUATRO edições aqui com a gente na nossa news científica…
Me conta uma coisa, aqui pro meu TCC? Qual foi a sua preferida? 🥹
E né, que delícia encerrar a última edição do ano com algo tão “caseiro”, tão cultural e, ainda assim, tão cientificamente embasado.
Entre nós: sua avó, sua mãe e metade das senhorinhas do Brasil estavam certas antes da Cochrane confirmar. A ciência só correu atrás depois heheh e que bom!
Obrigada por estar aqui toda semana, estudando, se atualizando e cuidando cada vez melhor dos seus pacientes.
A gente volta em 2026 (porque né, até nós merecemos umas mini férias kkkk) com mais evidência boa, mais risadas e, claro, mais PDC!
Um brinde à pediatria que transforma.
Um brinde à 2026!
Beijinhos científicos,
Gabi do PDC 💛