#19: Teste brasileiro para rastreio de TEA

Rápido, prático e validado, o Mini-TEA veio para preencher lacunas

EDIÇÃO #19

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

Se você perdeu o PedJourney…

Eu sinto muito, mas você perdeu mesmo e perdeu muito rs achou que eu ia te consolar? Eu hein, não to aqui pra passar pano pra ninguém não rs perdeu, mesmo. MAS….

Como o intuito dessa instituição chamada Pediatra de Consultório é, antes de qualquer coisa, capacitar profissionais para levarem um melhor atendimento aos seus pacientes, resolvemos compartilhar aqui um pouquinho da aula de TEA, que foi linda!

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Psychometric characteristics of the Mini-TEA scale: a screening instrument for autism spectrum disorder in children

Fonte: Jornal de Pediatria, publicado online em Junho de 2025 [Acesso ao documento completo aqui]

  • Por que você deveria se importar?

  • Você acha que sabe, mas…

  • O que o estudo avaliou

  • O que os resultados mostraram

  • Implicações práticas para pediatras

  • Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

Por que você deveria se importar?

Porque rastrear TEA é tarefa do pediatra, sim senhor.. e não só isso. Porque considerando a estatística de que uma em cada trinta crianças tem o diagnóstico de TEA, um diagnóstico bem feito (e o quanto antes feito) pode mudar completamente o destino de um paciente. E isso é o mínimo que eles merecem de nós.

E pra um bom diagnóstico, precisamos de uma boa ferramenta de triagem. E até agora, o M-CHAT deixava uma lacuna enorme: o que fazer com crianças acima de 30 meses?

A gente via o comportamento suspeito, os pais relatavam dificuldade de interação, e lá estávamos nós… sem ferramenta validada em português para triagem.

O Mini-TEA veio pra resolver justamente isso. Criado e validado no Sul do Brasil (ai que orgulho, gente 🇧🇷🥹), o instrumento cobre dos 2 anos e meio até os 12 anos e promete ser a “ponte diagnóstica” entre o olhar clínico e a avaliação especializada..

E o timing não podia ser melhor: com a prevalência crescente de TEA, ter uma ferramenta prática, rápida e sensível é o tipo de coisa que muda o jogo na linha de cuidado.

Então bora aprender mais sobre ela?

Você acha que sabe, mas…

O Mini-TEA não é uma versão “pocket” do M-CHAT. Ele foi desenvolvido do zero, com base nas características centrais do espectro autista* e foi pensado pra ser simples o suficiente pra uso até fora do consultório.

A escala é respondida por pais, cuidadores ou professores, com 48 perguntas binárias (ou seja, de sim/não).

Parece simples, mas é justamente aí que mora a genialidade da coisa. Essa estrutura direta foi o que permitiu comprovar que o Mini-TEA realmente faz o que promete: avalia de forma consistente os comportamentos típicos do espectro autista.

E vale lembrar: o Mini-TEA não substitui a avaliação clínica, ok? Mas é um baita atalho pra quem ainda tá lá, tentando diferenciar os sinais de TEA de algum(s) paciente(s).

*comunicação social, reciprocidade e comportamento repetitivo

O que o estudo avaliou

O trabalho brasileiro incluiu 279 crianças de 2,5 a 12 anos, avaliadas na APAE de Passo Fundo (RS). Entre elas, 115 tinham diagnóstico confirmado de TEA (baseado em DSM-V, feito por avaliadores cegos aos escores da Mini-TEA).

Os responsáveis responderam à escala (tempo médio: 8,5 minutos, ou seja, mais rápido que esperar abrir o prontuário eletrônico as vezes kkkkk 😅).

A análise psicométrica (fatorial confirmatória e modelo de Rasch) mostrou que o instrumento é unidimensional, ou em outras palavras, que todos os itens medem o mesmo “núcleo” do TEA.

O estudo também definiu o ponto de corte ideal (≥9 pontos) e calculou métricas de sensibilidade, especificidade e AUC para medir a capacidade de discriminar entre TEA e não-TEA.

O que os resultados mostraram

Vamos direto ao ponto: o Mini-TEA mostrou desempenho excelente como ferramenta de triagem para o espectro autista. E quando falamos “excelente”, não é força de expressão: a escala apresentou sensibilidade de 98,3%, ou seja, conseguiu identificar praticamente todas as crianças com TEA incluídas no estudo.

A especificidade foi de 62,2%, um valor esperado para instrumentos de rastreio (afinal, o objetivo aqui é não deixar passar nenhum caso suspeito, mesmo que isso signifique alguns “falsos positivos” pelo caminho).

Em outras palavras, nunca esqueça: é melhor encaminhar uma criança que depois se mostra neurotípica do que perder a chance de intervir cedo em quem realmente precisa.

A curva ROC (AUC = 0,88) confirmou a forte capacidade discriminatória do Mini-TEA, mostrando que ele diferencia bem crianças com e sem TEA. O escore médio foi de 10,98 entre os participantes com diagnóstico confirmado e 4,12 entre os sem diagnóstico, uma diferença estatisticamente significativa e clinicamente relevante.

Os autores ainda chamam atenção para um ponto interessante: embora a escala tenha funcionado muito bem na amostra geral, alguns casos de TEA de alto funcionamento (ou seja, crianças com bom repertório verbal e social) podem ter escores mais baixos...

Mesmo assim, o Mini-TEA se mostrou um instrumento altamente eficiente para uso populacional e em contextos clínicos de rotina, especialmente na atenção primária e em escolas.

Em resumo, o estudo confirmou que a Mini-TEA cumpre o que promete: é rápida, sensível e traz o rastreio de TEA para a prática real do pediatra, sem precisar de formulários infinitos ou softwares mirabolantes.

Ah, sim, e é BRASILEIRAAAAA (affff muito orgulho 🇧🇷)

Implicações práticas para pediatras

Primeiro: o Mini-TEA não veio pra substituir o M-CHAT, mas pra complementar o arsenal do pediatra. Agora temos uma ferramenta validada para rastrear TEA após os 2 anos e meio, período em que muitos sinais começam a ficar mais evidentes e o pediatra tem mais contato com o comportamento da criança.

Pode ser aplicada no consultório, na escola ou em serviços de atenção primária. E o ideal é que o pediatra interprete o escore (≥9 = risco aumentado) e encaminhe para avaliação diagnóstica formal com equipe multiprofissional, sempre!

Ah, e o melhor: o artigo reforça que o uso do Mini-TEA ajuda a reduzir as filas de avaliação especializada, já que permite um rastreio precoce e mais direcionado (o tipo de impacto que muda o desfecho do TEA lá na frente).

Lindo de ver, né?

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

 O Mini-TEA é uma escala brasileira de triagem para TEA, válida de 2,5 a 12 anos

✅ Tem alta sensibilidade (98,3%), é rápida (~8 minutos) e fácil de aplicar

✅ Escore ≥9 indica necessidade de investigação diagnóstica

✅ Não substitui o M-CHAT, mas amplia a faixa etária de rastreio

✅ Pode ser aplicada por pais, professores ou profissionais de saúde

✅ Ideal pra APS e consultório pediátrico, especialmente onde o acesso a neuropediatria é demorado..

E se você chegou até aqui, parabéns, você ta mais atualizado que 90% dos pediatras brasileiros. E eu não to brincando kkkk

Esse tipo de estudo, além de mostrar como a ciência brasileira pode produzir ferramentas práticas e adaptadas à nossa realidade, destaca a importância do pediatra na jornada do paciente com TEA.

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Até semana que vem, nesse mesmo batcanal.

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC