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#27: Você está fazendo anamnese alimentar errada
Spoiler: não é só sobre O QUE a criança come
EDIÇÃO #27
The Peds Journal
A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!
A TV ligada no jantar está sabotando seu paciente 📺
Sabe aquela consulta de puericultura em que a mãe diz que a criança "não come nada", é "seletiva demais" ou "só quer beliscar"? Pois é…
A gente costuma focar no COMO os pais oferecem a comida (pressão? recompensa? controle?). Mas um estudo novinho de Hong Kong mostrou que o ONDE e o CONTEXTO da refeição explicam MAIS sobre o comportamento alimentar da criança do que o estilo parental de alimentação sozinho.
Sim, você leu certo. O ambiente da casa pode ser mais importante do que a técnica dos pais. Desde 2021, começamos nosso módulo de introdução alimentar com “Introdução Alimentar Comportamental". E nunca foi à toa rs
🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje
Tema: Como o ambiente familiar molda o comportamento alimentar de pré-escolares - além do estilo parental
Fonte: Contribution of parental feeding practices and home environmental factors to the eating behaviours of preschool children
Por que você deveria se importar
Você acha que sabe, mas…
O que o estudo mostrou
Como orientar na prática
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
🚨Exclusivo para alunos PDC🚨
Antes de começarmos a edição de hoje, um recado exclusivo para ALUNOS do PDC:
Nesta quinta, dia 29/01, às 20h, vamos fazer um aulão EXCLUSIVO para membros da nossa Comunidade PDC:
📌Autismo na prática clínica: o que ninguém te ensina durante a formação.
O que você verá nessa aula posso te garantir que 80% dos pediatras gerais não sabem (e os que sabem, pagaram cursos caríssimos para ter esse tipo de informação).
Então NÃO PERCAM, porque é conteúdo 100% prático pra vocês aplicarem com segurança já no próximo atendimento.
E como quem avisa amigo é, o presente de vocês em comemoração aos 4 anos do PDC vai chegar logo após essa aula (e com força VITALÍCIA 👀, mas pela última vez).
⚠️ Importante: a aula será gratuita, AO VIVO e não ficará gravada.
Por que você deveria se importar?
A gente já sabe que o estilo parental de alimentação importa. Pressionar demais, usar comida como recompensa emocional, controlar excessivamente… tudo isso aparece em estudos sobre comportamento alimentar infantil, e não é de hoje.
Mas esse estudo fez algo diferente: investigou a contribuição incremental dos fatores AMBIENTAIS da casa. Ou seja, depois de considerar o estilo dos pais, quanto os fatores do ambiente doméstico ADICIONAM de explicação?
Resultado: os estilos parentais explicaram 3-12% da variância no comportamento alimentar das crianças. Mas sabe quanto adicionaram os fatores ambientais? +15% de variância explicada.
Traduzindo: o ambiente da casa (estrutura das refeições, distrações durante as refeições e caos doméstico) contribuiu MAIS do que o estilo parental para alguns comportamentos alimentares, especialmente:
Desejo de beber (em vez de comer)
Responsividade à comida
Lentidão para comer
E isso muda total a conversa no consultório. Porque não é só "como você oferece?", é "como é o ambiente quando vocês comem?"
E é isso que vamos discutir hoje!
Você acha que sabe, mas…
Topa quebrar alguns conceitos que, por muitas vezes, tomamos como verdade absoluta?!
📌 "O mais importante é o estilo de alimentação dos pais"
Parcialmente certo. É claro que o estilo da alimentação dos pais importa. Principalmente porque está relacionado ao melhor controle sobre a alimentação, que foi associado a menos overeating emocional (aquele “comer ansioso”, vivenciado por muitos), menos seletividade alimentar e maior apetite.
Mas ele explica só uma parte da história. O ambiente familiar adiciona uma camada significativa de explicação. E isso muitas vezes passa batido…
📌 "Caos doméstico não tem nada a ver com alimentação"
Errado. O estudo mediu o "household chaos" (aquela casa com rotina imprevisível, barulho, desorganização, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo) e esse caos foi associado a piores comportamentos alimentares nas crianças.
Podemos dizer que ambiente desorganizado = alimentação desorganizada.
📌 "Ah, mas é só desligar a TV"
Hmmm mais ou menos. É mais do que isso.
As distrações durante as refeições (TV, celular, tablets) foram um fator significativo, mas o estudo mostrou que a ESTRUTURA das refeições como um todo importa: horários consistentes, local definido para comer, família sentada junto.
Não é só tirar a tela, é criar um ritual na hora da alimentação. É dar o exemplo pra criança.
📌 "Criança seletiva é assim mesmo, personalidade"
Por favor, não repitam isso… Seletividade é algo muito mais profundo do que “é o jeito dela”.
O estudo mostrou que o controle parental adequado sobre a alimentação foi associado a MENOR seletividade. E um ambiente estruturado também ajudou. Ou seja, seletividade não é “destino”, mas é, em grande parte, resposta ao contexto.
O que o estudo mostrou
Metodologia:
253 díades pais-filhos de 16 escolas de Hong Kong
Pré-escolares
Questionários validados: PFSQ (estilos parentais) e CEBQ (comportamentos alimentares)
Análise de regressão hierárquica controlando variáveis demográficas
Estilos parentais avaliados:
Instrumental: que usa a comida como recompensa por comportamento
Emocional: que oferece comida para confortar emocionalmente
Encorajador: que incentiva a criança a comer
Controlador: que estabelece limites e regras sobre alimentação
Fatores ambientais avaliados:
Estrutura das refeições: horários consistentes, local definido
Distrações durante refeições: TV, dispositivos eletrônicos no geral
Caos doméstico: desorganização geral da casa, imprevisibilidade
Principais achados:

Como orientar na prática
Primeiro de tudo, ampliando a anamnese alimentar. Ou seja, além de perguntar O QUE a criança come, precisamos perguntar:
"Onde vocês fazem as refeições? Mesa? Sofá? Andando pela casa?”
"A TV fica ligada durante as refeições? E celular? Tablet?”
"Vocês têm horários mais ou menos fixos para as refeições?"
"A família consegue comer junto com alguma frequência?"
“Como é a rotina da casa de modo geral? Mais tranquila ou mais agitada/imprevisível?"
Depois, precisamos lembrar das orientações baseadas no estudo: para os pais, por exemplo, devemos lembrar que tanto o COMO quanto o ONDE importam, e algumas orientações podem ser muito valiosas, como por exemplo:
Quanto à estrutura das refeições:
Definir horários relativamente consistentes (não precisa ser militar, mas previsível)
Ter um local específico para comer (mesa, cadeirão)
Quando possível, família come junto (extremamente importante, uma vez que a criança aprende por modelagem)
Reduzir distrações 📵
TV desligada durante as refeições
Celulares e tablets fora da mesa (isso vale pros pais também, rs)
O momento da refeição é SÓ refeição: não é hora de brincar, estudar ou assistir
Controle adequado (não é pressão!):
Estabelecer limites sobre o que é oferecido e quando
Não usar comida como recompensa emocional
Não forçar, mas também não deixar no "livre demanda" total
Reduzir o caos doméstico:
Rotinas previsíveis ajudam a criança a se autorregular, inclusive na alimentação
Se a casa é muito caótica, pelo menos o momento da refeição pode ser um "oásis de calma"
Em 1 minuto: o que você precisa lembrar
✅ O ambiente familiar explica MAIS sobre comportamento alimentar do que o estilo parental sozinho (+15% de variância)
✅ Três fatores ambientais importantes: estrutura das refeições, distrações (TV/celular) e caos doméstico
✅ Controle parental adequado está associado a MENOS seletividade alimentar e menos overeating emocional
✅ TV ligada e celular na mesa atrapalham a responsividade da criança à comida
✅ Caos doméstico (casa desorganizada, rotina imprevisível) está associado a piores comportamentos alimentares
Confesso que esse estudo me fez repensar como faço anamnese alimentar. A gente pergunta muito sobre O QUE a criança come, um pouco sobre COMO os pais oferecem, mas raramente sobre como é o AMBIENTE das refeições…
E olha, faz todo sentido do ponto de vista de desenvolvimento. Criança é puro contexto. Ela não opera no vácuo, ela responde ao ambiente.
Se o ambiente é caótico, se tem mil estímulos competindo pela atenção dela, se não tem previsibilidade... como esperar que ela desenvolva autorregulação alimentar?
Então da próxima vez que uma mãe disser que o filho "não come nada", antes de pensar em suplemento ou exame, lembre-se de perguntar: "Me conta como é o momento da refeição na casa de vocês?"
A resposta pode ser mais reveladora do que qualquer exame sofisticado!
Se você gostou dessa edição (ou não), manda aqui seu feedback pra mim, vou adorar ler cada um pessoalmente!
E se tiver alguma sugestão de artigo que queira que a gente traga aqui, só nos enviar também!
Nos vemos na próxima The Peds!
Beijinhos científicos,
Gabi do PDC 💛