#25: Você tem medo do veganismo?

Entender para melhor acompanhar...

EDIÇÃO #25

The Peds Journal

A newsletter da pediatria baseada em evidência - com leveza, profundidade e algumas risadas, por que não?!

Feliz ano novoooooo, pediatras do nosso Brasil!

Sim, até dia 31/01 eu falo “feliz ano novo” pra todo mundo que to falando pela primeira vez em 2026 rs e como essa é a nossa PRIMEIRÍSSIMA news de 2026, vocês merecem essa recepção 😜

Agora falem aqui pra titia: tavam com saudades dos nossos encontros científicos semanais? rs eu tava morrendoooooo! Por isso selecionei um tema ó, especialíssimo (e claro, super atual) pra gente começar: vegetarianismo e veganismo da infância!

Bora?!

Ps: leia até o final apenas quem realmente ta a fim de estudar (e curte ganhar presente 🤭)

🧠 Como você vai ficar mais inteligente hoje

Tema: Dietas vegetarianas e veganas na infância

Fonte: Revisão sistemática – Journal of Pediatric Nutrition (ano do artigo) [Acesse o documento completo aqui]

  • Por que você deveria se importar?

  • Você acha que sabe, mas…

  • Onde estão os riscos reais

  • O que NÃO pode faltar na orientação

  • O papel do pediatra (spoiler: é central)

  • Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

Por que você deveria se importar?

Porque o veganismo na infância já não é mais exceção - é realidade de todo pediatra de consultório.

Chega toda semana: famílias bem-informadas, famílias confusas, famílias militantes, famílias inseguras... E todas com a mesma pergunta implícita: “meu filho vai crescer bem assim?”

E eu sei o que você tá pensando, mas ignorar o tema ou tratá-lo como “moda” não protege ninguém. Pelo contrário: aumenta o risco de orientação incompleta, atrasos no diagnóstico de deficiências nutricionais e quebra de vínculo com a família.

Por isso, o escolhido da semana foi essa revisão sistemática, justamente porque o volume de crianças em dietas vegetarianas e veganas cresceu, e cresceu rápido o suficiente para exigir avaliação científica de segurança, riscos e pontos de atenção.

Então bora entender um pouco melhor, antes de começar a julgar, ok?

Você acha que sabe, mas…

Vamos começar do começo? Já que o óbvio precisa ser dito?

Dietas “plant-based” não são todas iguais.

Não é a mesma coisa falar de uma criança ovolactovegetariana, vegetariana estrita ou vegana. Nosso estudo deixa isso muito claro ao analisar padrões alimentares diferentes e seus impactos nas vida das crianças.

Além disso, um outro ponto que costuma confundir é que não é o veganismo em si que determina risco, e sim o planejamento nutricional (ou, no caso, a ausência dele rs).

Crianças em dietas veganas podem sim crescer adequadamente, mas não crescem bem “por acaso”. Isso exige escolhas alimentares específicas, suplementação correta e acompanhamento profissional regular.

E é aí que mora a importância de um pediatra de consultório atualizado e pronto pra lidar com o assunto… que sabemos bem: não são todos. 🥴

E talvez o mito mais perigoso esteja relacionado a isso: achar que “se algo der errado com essa criança, o pediatra vai perceber rápido”.

O artigo aponta que, sem suplementação, crianças veganas de diferentes idades ficam em alto risco de deficiência de B12..

que vitamina D é um risco também, de forma parecida com crianças onívoras. E que além disso, em comparação com onívoros, veganos tendem a ter ferritina mais baixa (em média ainda dentro do normal), sugerindo possível risco de estoques de ferro mais “apertados”.

Ou seja: se você achava que a conversa era só “cresce ou não cresce?”, o artigo mostra que a história é mais “sofisticada”: crescimento pode até não gritar, mas B12, vitamina D, cálcio e estoques de ferro podem sussurrar, e a gente precisa saber ouvir, né?

E é exatamente isso que a gente vai destrinchar nos próximos tópicos (onde estão os riscos reais + o que não pode faltar na orientação + o papel do pediatra nisso tudo).

O que mostram as evidências

A revisão é bastante consistente ao apontar quais nutrientes merecem atenção prioritária em crianças veganas..

A vitamina B12 é o ponto mais crítico e inegociável. Dietas veganas não fornecem B12 adequada sem suplementação, e a deficiência pode levar a atraso do desenvolvimento, anemia megaloblástica e comprometimento neurológico.

Mas além dela, que já é meio “batida”, o estudo também destaca atenção para:

  • Ferro: pela menor biodisponibilidade do ferro não heme;

  • Zinco: especialmente em dietas com alto teor de fitatos;

  • Cálcio e vitamina D: dependendo das fontes utilizadas por essa família;

  • Iodo: frequentemente negligenciado;

  • Proteína: não pela quantidade total, mas pela qualidade e distribuição ao longo do dia;

  • Ácidos graxos ômega-3: especialmente DHA.

Importantíssimo: o artigo não afirma que todas as crianças veganas terão deficiência, mas deixa claro que o risco é maior quando NÃO há orientação adequada, ok?

Por isso a importância de fazermos o “checklist” desses nutrientes na hora de orientar cada família.

O que NÃO pode faltar na orientação

Orientar família vegana não é dizer “pode” ou “não pode”.

É ensinar como fazer direito. Então vamos lá, passo a passo:

  1. A revisão reforça que suplementação de B12 é obrigatória.

Não opcional, não negociável e não substituível por alimentos “naturais”.

Além disso, a orientação precisa incluir variedade alimentar real, combinações que aumentem a biodisponibilidade de nutrientes e vigilância clínica periódica.

  1. Outro ponto central: a alimentação complementar merece atenção redobrada.

É justamente nesse período que erros de planejamento têm maior impacto sobre crescimento e desenvolvimento.

Muitos ultraprocessados e alimentos vegetarianos/veganos são igual nota de 9 reais: falsos rs

Essa história de que “é natural, é vegano, é glúten-free, lactose-free” é sinônimo de saudável já ta velha e batida. Precisamos chamar atenção das famílias pra isso!

  1. E talvez o mais importante: orientação contínua.

Não basta uma conversa isolada na consulta de 6 meses. Dietas restritivas exigem acompanhamento longitudinal, ou seja, em TODA consulta.

Pra facilitar a vida, porque somos dessas, criamos um um “Checklist da Consulta da Família Vegana/Vegetariana” e transformamos isso num material lindo e maravilhoso, como só a gente sabe fazer… mas não consigo enviar isso por aqui!

“Gabiiiiii mulher, mas como faço pra ter acesso?” - Presta atenção, gafanhota(o):

→ Vai AGORA lá no instagram do PDC e nos manda a palavra “checklist” pelo direct, que imediatamente você já vai receber, combinado?

O papel do pediatra (spoiler: é central)

De novo, falando o óbvio: se a família escolheu uma dieta plant-based, nosso papel não é concordar, ser fiscal ou militante da carne…

Nós somos os guardiões de algo muito mais importante: a saúde da criança. Logo, agir com embasamento científico é o mínimo

O estudo deixa implícito algo muito poderoso: o risco maior não está na dieta em si (independente de qual), mas na ausência de acompanhamento profissional.

Quando o pediatra se afasta, a família busca informação em fontes nem sempre confiáveis. Quando o pediatra se aproxima, orienta e acompanha, os desfechos tendem a ser melhores.

Ser referência aqui significa:

  • Avaliar crescimento e desenvolvimento com lupa;

  • Solicitar exames quando indicados;

  • Reforçar suplementações essenciais;

  • Ajustar condutas ao longo do tempo.

Ser referência aqui significa saber conduzir. E conduzir dá trabalho: exige atualização, leitura crítica, segurança para conversar com famílias bem informadas (e, às vezes, mais ansiosas do que gostaríamos)...

É exatamente nesse tipo de cenário, complexo, frequente e cheio de ruído, que se separa o pediatra que apenas atende daquele que vira referência real para as famílias.

Não é sobre saber tudo de cor, mas sobre saber onde buscar, como interpretar e como aplicar a evidência no consultório.

E se veganismo na infância já chegou com força à sua agenda, outros temas igualmente desafiadores também chegaram (ou ainda vão chegar).

É por isso que, no dia 24 de janeiro, vamos viver juntos o Guideline do Pediatra Referência: um dia inteiro pensado para quem quer se sentir seguro nas decisões difíceis, sustentar condutas com ciência e construir uma prática pediátrica sólida, respeitada e coerente.

E não é coincidência que esse tema vai estar lá. Ele é exatamente o exemplo de conteúdo de puericultura que define quem vira referência e quem fica refém do improviso.

Em 1 minuto: o que você precisa lembrar

 Veganismo na infância não é contraindicado, mas não pode ser improvisado.

✅ Vitamina B12 deve ser sempre suplementada.

✅ Ferro, zinco, cálcio, vitamina D, iodo e ômega-3 exigem atenção específica.

✅ O risco está na falta de planejamento e acompanhamento, não na escolha alimentar isolada.

✅ Pra acessar o “Checklist da Consulta Vegana/Vegetariana” é só ir no direct do @pediatradeconsultorio e digitar “CHECKLIST”

✅ Dia 24/01 nos vemos no maior congresso online de consultório pediátrico que você já viu!

E se você chegou até aqui, parabéns… Você acabou de fazer o que diferencia o pediatra comum do pediatra referência: parou, leu a evidência e pensou em como aplicá-la na vida real.

Em um tema que gera ruído, opinião e insegurança, você escolheu ciência, raciocínio clínico e responsabilidade.

É exatamente esse tipo de pediatria que a gente acredita, constrói e celebra aqui no PDC. E é isso que vamos aprofundar juntos no Guideline do Pediatra Referência, no dia 24 de janeiro.

Porque, no fim do dia, ser referência não é saber tudo, mas saber cuidar melhor.

Beijinhos científicos,

Gabi do PDC 💛